24 de novembro de 2018, por Áurius Gonçalves

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Nessa última sexta-feira, dia 23 de novembro, o presidente eleito Jair Messias Bolsonaro anunciou a indicação para o cargo de Ministro da Educação o professor Doutor Ricardo Vélez Rodriguez, professor esse que já adianto, tenho muito orgulho de ter sido aluno no curso de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora, no período de 2008 a 2013. Esse sentimento de orgulho se confunde ao mesmo tempo com um sentimento de apreensão, visto que Ricardo Vélez assume e concorda com boa parte dos posicionamentos do então presidente eleito.

O movimento intitulado “Escola sem partido” tem por objetivo a proposta de intervenção educacional no sentido de coibir o que seus líderes chamam de doutrinamento ideológico. Trata-se de um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e que busca descaracterizar a educação (principalmente a educação nos moldes de Paulo Freire) como é adotada, em suas mais variadas latitudes, proibindo de se discutir questões a respeito de gênero, político/partidário, assim como, defendem a proibição de qualquer manifestação de cunho político e pessoal em todo ambiente acadêmico. Essa postura, ao meu ver, está completamente contrário ao modo de como o professor, agora indicado ministro, agia em nossos tempos acadêmicos. Sua postura era clara e notória em relação ao movimento de esquerda nas salas de aulas, criticando veementemente o então ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex presidenta Dilma Roussef. Nunca, e em momento algum, o professor Ricardo Vélez foi questionado e desrespeitado em sala de aula por nenhum aluno ou professor naquele período por assumir publicamente suas posições. Essa postura atual não reflete o professor de antes, que repito, cativa minha maior estima e respeito justamente por expor suas opiniões de maneira respeitosa. Nesse sentido, fica minha apreensão frente ao “novo” modelo de governo educacional.

A premissa de que as escolas militares são exemplos de aprendizagem podem ser assumidas sem maiores problemas, visto que primam por um ambiente de respeito e de disciplina. Entretanto, devem ser observados alguns pontos importantes, como por exemplo, recolhem uma considerável receita financiada pelo governo federal que possibilita uma estrutura capaz de administrar sem maiores problemas. Além disso, o processo seletivo dessas instituições, evita a admissão de alunos mais despreparados do ponto de vista educacional. Isso facilita em muito no processo de desenvolvimento do aprendizado infantil ao longo da jornada acadêmica.

Outro ponto importante desse projeto é que possivelmente, as escolas públicas passariam a gozar de um “respeito” maior pois haveria a contrapartida do governo eleito o recebimento de recursos para o desenvolvimento dessas escolas. Mas foi ele mesmo, o então anteriormente deputado federal Jair Bolsonaro, quem votou pela aprovação da PEC 55/2006 que limita e congela os gastos públicos por 20 anos. Como estruturar as escolas públicas sem investimentos? Fica a colocação para o indicado Ministro da Educação auxiliar nessa realidade.

A suposta premissa de que professores doutrinadores com orientações marxistas interferem de maneira ideológica o aprendizado dos alunos, não se sustenta por si só. Falo isso mesmo como professor secundarista, pois profissionais de educação encontram dificuldades de apresentação de conteúdos, pois alunos são resistentes por natureza a lerem os textos oferecidos aos mesmos. O professor – em especial o professor de filosofia – encontra obstáculos dos mais variados tons para exercer suas funções em sala de aula. Além disso, existem esferas de realidades diferentes em cidades, estados e lugares, onde a educação mais serve de auxílio à manutenção da vida do que propriamente instrução acadêmica.

Nosso futuro Ministro conhece a realidade educacional desse país, pois vivencia isso constantemente. Estabelecer um padrão educacional que impossibilite a emergência dessas características idiossincráticas vedam qualquer possibilidade de transformação humana e facilita a manutenção das estruturas de dominação social.

Já a algum tempo tive a oportunidade de discutir isso num outro texto (http://www.pautando.com.br/2018/10/16/a-politica-nos-dias-de-hoje/) a importância de se discutir política em todas as esferas. A proibição disso é tão ideológica quanto sua própria proibição. Fica clara a doutrinação de que o contrário não pode ser tolerado. O diferente fica renegado à esfera privada e sem possibilidades de diálogo. Logo, o projeto “Escola sem partido” fica sabotado já na sua gênese.

De qualquer forma, será um desafio para o meu querido professor Ricardo Vélez Rodriguez a missão de dialogar com o Congresso Nacional, Universidades Públicas e privadas, Institutos de Educação, escolas estaduais e municipais, assim como a sociedade de maneira geral e, desejo de pronto, sucesso em todo o seu trabalho.

Esperamos dele a mesma reciprocidade e respeito que ele teve ao longo desses anos na nossa querida Universidade Federal de Juiz de Fora.

Sobre o Autor

Áurius Gonçalves

É graduado e licenciado em Filosofia pelo Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduado em Filosofia, Cultura e Sociedade também pela UFJF. Atualmente é bolsista de Treinamento Profissional no projeto Pibid-Filosofia da UFJF, bem como, militante do Partido dos Trabalhadores.

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