16 de outubro de 2018, por Áurius Gonçalves

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“Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz.” Epicuro

 

Não há tema mais polêmico nos dias de hoje do que a Política. Em meus estudos propedêuticos, não pude deixar de sentir alguma ponta de insatisfação ao me deparar com as aulas de Filosofia Antiga. Tudo o que antes, se apresentava para mim como “real e verdadeiro” se desfez como um castelo de areia diante de mim. Mas como todo iniciante dos estudos das ciências humanas, percebi logo cedo que a Filosofia, como disciplina acadêmica, iria exigir de mim certa dose de paciência e de memória, como aconselhava sempre o meu querido professor Mário José dos Santos: Paciência para lidar com aquilo que não podemos mudar, e memória para lembrar que temos que ter paciência, se não…

Pois bem, aqui vai minha primeira observação. Ao analisar o homem grego antigo, percebi que apesar da diferença temporal entre os séculos V e IV a.C. e os dias de hoje, pouco houve mudança no comportamento humano, principalmente no que diz respeito ao modo de vida política. Pode parecer estranho, mas veremos um bom exemplo do que estou dizendo. Outro dia escutei um político chamar o outro de “idiota” diante de um monte de pessoas. Tal “ofensa” me chamou muito a atenção, pois me lembrei nas aulas de Grego Antigo que o significado da palavra idiota – ou idiótes – quer dizer “aquele que só pensa em si mesmo, no particular e no que é privado.” Claro que num primeiro momento aquela palavra fez todo o sentido para mim, mas confesso que não fiquei satisfeito com aquilo. Bom, o idiota tem como contrário a palavra polités, ou seja, aquele que se preocupa com a res pública ou coisa pública: o cidadão da pólis.

Isso me chamou muito a atenção, pois nos dias de hoje quando alguém pensa em discutir política, quase sempre se ouve aquela expressão “política é coisa que não se discute” e ponto final. Esse, portanto, é o significado mais claro do que quer dizer um idiota: aquele que não debate política. Mas será isso apenas um fenômeno da pós modernidade, ou seria apenas uma espécie de “senso comum” de nossos tempos? O filósofo italiano Antonio Gramsci, contudo, propõe uma distinção interessante. Para ele, o “senso comum” expressa uma postura predominantemente passiva; cada sujeito se limita a adotar critérios, comportamentos, modos de sentir e de pensar que predominam na sua sociedade ou no seu grupo. E o “bom senso” é o movimento espiritual pelo qual o sujeito assume uma disposição crítica e, com os instrumentos de que dispõe, enfrenta o desafio de refletir por conta própria sobre as coisas. O “senso comum”, então se inclina para a adaptação ao meio, às circunstâncias. E o “bom senso” abre caminho para o uso transformador dos conhecimentos, para o questionamento das condições existentes e por conseqüência, para tudo aquilo que se apresenta como novidade.

Filosofar politicamente, nesse ponto de vista, tem mais a ver com a forma de se apontar as contradições de determinada “forma de governo” do que simplesmente assumir um posicionamento político – embora quase sempre assumimos esse posicionamento inconscientemente – que nos coloca em posição privilegiada frente aos ideais políticos assumidos anteriormente. Defender algum ponto de vista, não é necessariamente “extirpar” do seu interior os elementos que não lhe interessam, mas assumir essas contradições para poder ultrapassar os limites daquilo que já é “dado” para algo possível. A troca de experiências no âmbito do universo político é que possibilitou a sociedade evoluir para uma possibilidade outra, e não o contrário. O que vemos nos dias de hoje é justamente o oposto nas relações sociais: intolerância ideológica, radicalismo exacerbado, diálogos epidérmicos, com uma verborragia chula e descabida.

A Filosofia não é só uma forma de pensar o mundo. Ela também é uma ação, pois filosofar é problematizar, intervir, argumentar, conceituar…

Não discutir sobre política é idiotizar o ser humano, pois ao fazer isso, concordamos com a premissa de que somos incapazes de nos comunicarmos e que não temos a capacidade de olhar para o passado e não aprendermos com nossos erros. O que percebemos é que, na falta de argumentos palpáveis e sólidos – pois somos herdeiros de uma sociedade ágrafa – passamos a ofender e a tentar “destruir” a pessoa portadora da fala. Em minhas aulas de Lógica, expressões como argumentum ad hominen, argumentum ad baculum, argumentum ad populum e agumentum ad mesericurdium[1] agora fazem todo o sentido para mim. São falácias argumentativas que expressam ofensas, violência física e verbal, apelo ao povo e apelo por ignorância. Vale ressaltar que filosofar não é uma prerrogativa apenas de “um filósofo”; é antes de tudo, um posicionamento crítico frente ao mundo. É justamente por esse motivo que o filósofo encontra dificuldades em entender certos posicionamentos pessoais de algumas pessoas, pois ao analisar mais de perto, essas mesmas pessoas não sabem argumentar e expor claramente suas ideias.

O que vemos atualmente é a estupidificação da política como meio – e porque não dizer fim – de se idiotizar as pessoas, com o sentido de tornar ainda mais confuso o universo da discussão. Esclarecer os pontos mais “obscuros” é que deveria ser o papel da filosofia política; não concordar com isso seria uma abominação intelectual, pois é do diálogo que resulta o conhecimento.

O respeito ao diálogo é o primeiro passo para se afastar da postura ingênua de que temos que ter razão em absolutamente tudo. Fica a dica.

[1] COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Irving M. Copi, tradução de Álvaro Cabral, – 2ª edição, São Paulo, 1978, pp, 73-81.

Sobre o Autor

Áurius Gonçalves

É graduado e licenciado em Filosofia pelo Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduado em Filosofia, Cultura e Sociedade também pela UFJF. Atualmente é bolsista de Treinamento Profissional no projeto Pibid-Filosofia da UFJF, bem como, militante do Partido dos Trabalhadores.

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