10 de setembro de 2018, por Oleg Abramov

teseu

Luis Nassif tem usado a alegoria “xadrez” para analisar os acontecimentos políticos desde a época do impeachment. A última partida que descreve[1] é particularmente precisa a meu ver, tão precisa quanto aterrorizante.

Nassif narra o acordo entre Bolsonaro e as Organizações Globo e antecipa aspectos assustadores do que poderá ser o eventual governo do ex-capitão. Entretanto, para acompanhar seu argumento é preciso desatar o fio de Ariadne que conecta, em uma ponta, a desalentadora previsão do que pode vir no futuro, à outra, que amarra os pressupostos que tornam crível a imagem de uma ampla aliança das elites com Jair Bolsonaro.

O que figura como pedra angular capaz de tornar crível o pacto é a percepção daquilo que as elites não querem e o que querem com esta eleição presidencial. Muitos de nós consideram Bolsonaro imponderável porque ele é a expressão não apenas do retrocesso, mas do atraso. Não apenas um retrocesso pontual, nesta ou naquela dimensão da política ou da vida social, mas um atraso em relação a um conjunto de conquistas civilizatórias. Por isso, ao partir do pressuposto que parcela das elites é composta de gente esclarecida, alguns continuam achando impossível um grande acerto entre elas e Bolsonaro. Só que, tanto a Globo, representando a nata das empresas de comunicação, quanto os capitalistas, em suas variações empresarial e rentista, já deram sinais claros que são capazes de ignorar os aspectos mais toscos do personagem em nome da preservação de seus interesses centrais. Ou seja, cada qual está raciocinando do ponto de vista daquilo que considera os maiores riscos e as potenciais oportunidades decorrentes de uma eventual vitória eleitoral do PSL.

Para compreender tal aliança, é importante determinar primeiramente o que as elites esperam que não ocorra: o retorno do PT. Antes de mais nada, cada fração da classe domimante admite fazer tudo para evitar que o PT conquiste um novo mandato. Veja, considerando que Alckmin não emplacará, cada segmento da elite está percebendo a possibilidade real de que, mesmo tirando Lula do páreo, um candidato à esquerda, possivelmente Haddad, estará no segundo turno com chances de vitória. Esta é a premissa basal a partir da qual os atores acima citados estão fazendo seus cálculos racionais.

Todas as candidaturas progressistas estão firmemente comprometidas a dar um basta à ditadura do rentismo; elas ameaçam por um freio na sangria financeira produzida na sociedade em função das astronômicas margens de lucro dos bancos. As organizações Globo e outros satélites midiáticos, por sua vez, sabem que foram longe demais do impeachment para cá, e que se algum candidato contrário ao golpe vencer, dificilmente poderão sair incólumes de uma revanche com o próximo presidente. Além das contas publicitárias milionárias firmadas com o governo estarem em xeque, temas como regulação da mídia ou ampliação da concorrência aparecerão na agenda. Já quanto aos empresários brasileiros, a compreensão de sua postura exige um pouco mais de esforço. O PT sempre atuou em seu benefício e todos os candidatos progressistas, até a Comunista Manu quando era pré-candidata, se posicionam em favor de seus interesses. Ao contrário dos proponentes à direita, Bolsonaro inclusive, que pregam o evangelho do livre mercado e da concorrência aberta que conspiram fortemente em desfavor dos interesses do setor produtivo nacional. Então porque os empresários aplaudiram tão enfaticamente o candidato do PSL no evento da CNI alguns meses atrás? Em texto anterior apresentei meu ponto de vista sobre isso: pura intoxicação! Como um agente racional atua contra seu próprio interesse, senão em razão de uma profunda intoxicação ideológica? Sendo assim, uma vez absorvida a tese de que a liberdade de mercado é um bem a se alcançar a qualquer custo, mesmo que o preço seja sua própria existência, é crível perceber Bolsonaro como a opção dos empresários.

Eis então o segundo fator que explica a adesão do conjunto das elites, mesmo dos segmentos mais esclarecidos, ao simplório e asqueroso candidato do PSL: a entrega da tutela antecipada da economia ao ultra-liberal Paulo Guedes. Se o primeiro é evitar o retorno do PT ou a vitória de algum candidato progressista, o segundo fator é a subserviência do capitão em relação aos economistas liberais. Tanto os intoxicados empresários do setor produtivo, quanto as organizações Globo e o capitalismo rentista percebem em Bolsonaro o arauto do livre mercado, não porque deseja sê-lo, mas porque não é capaz de não ser.

Considerando estes pressupostos encontrados em uma ponta do fio, vamos à outra, aonde estão as considerações de Nassif.

O articulista apresenta em seu texto as pistas de que as Organizações Globo já iniciaram o processo de reconstrução da imagem do ex-capitão, amenizando-a. Um processo largamente facilitado pelo atentado que foi vítima. Ao lado, Nassif aposta em uma condução politizada das investigações, levantando-se eventuais suspeitas de conexão do algoz com organizações de esquerda a fim de desgastar Haddad e o PT. Por fim, ele antecipa o que poderá ser um eventual governo Bolsonaro realçando a hipótese de se firmar um grande pacto conservador envolvendo a coalizão Globo-capital e outros atores como os militares, o grupo do judiciário e o do Ministério Público. Neste caso, a própria democracia ficaria constrangida pela força reacionária de tal aliança composta por atores não eleitos.

Não tenho dúvida da possibilidade disso ocorrer. Não por previsão apocalíptica pura e simples, mas porque um outro fio de Ariadne conecta este momento ao passado: o ponto de partida da situação atual foi o golpe de Estado. Nada de bom resulta de feitos maléficos. É muito lógico imaginar que como novo desdobramento do golpe, venha algo ainda pior do que foi o governo Temer.

Porém, esta previsão não está confirmada, tudo depende da força eleitoral da reação ao golpe, enquanto os dados estiverem rolando ainda é possível ter esperança.

 

 

 

 

[1] https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-ultima-cartada-da-globo-com-bolsonaro-por-luis-nassif#.W5QT_6fj3Ak.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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