6 de setembro de 2018, por Oleg Abramov

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O atentado contra Jair Bolsonaro impacta os desdobramentos da eleição. Se ainda havia alguma dúvida, agora se dissipou, Bolsonaro vai ao segundo turno.

Começo a explicar meu ponto de vista pelo fiasco Alckmin: quem apostava na desidratação do candidato do PSL em favor do tucano, viu a tendência não se confirmar. A última pesquisa é desalentadora para Alckmin. Para chegar ao segundo turno, ele teria de dobrar pelo menos duas vezes suas intenções de votos em apenas quatro semanas de campanha. Se ele tivesse acertado o tom e houvesse iniciado alavancagem, poderia até ser. Mas o ex-governador segue patinando, sua suposta vantagem televisiva não foi suficiente nem para criar alguma empatia nos eleitores, nem se quer para neutralizar o desgaste gerado pela coalizão fisiológica que montou. Quando não parecia poder ficar pior, Temer vem a público para esclarecer, pela segunda vez, agora em tom de revide, que Alckmin é o candidato governista.

Fora o PSDB, nenhum outro presidenciável da direita consegue rivalizar com Bolsonaro: Álvaro Dias, Meirelles ou Amoêdo, nenhum emplacou. A incógnita é Marina Silva. O que fará e como pontuará na ausência de Lula veremos em breve.

Bolsonaro já vinha se consolidando no segundo turno, agora, após o atentado em Juiz de Fora, a tendência é que sua situação melhore ainda mais. Os eleitores que ele era capaz de atrair com seu discurso exaltado, já havia cativado. Número suficiente para chegar ao segundo turno, como disse, mas insuficiente para vencer o pleito. Daí o desafio passava a ser reduzir sua rejeição. O que é melhor para reduzir animosidade do que se tornar vítima?

Atingido pela faca de um ex-PSOL, Bolsonaro está prestes a atingir camadas de eleitores que até então não alcançava, passa a ter alguma afinidade até entre os que o hostilizavam. Bolsonaro agora é uma vítima, e como tal, causa pena e empatia.

Além disso, ele ganha autenticidade porque se torna alguém que sofreu na própria pele com a violência que diz ter a forma mais adequada de combater.

Mais, agora ele terá de ficar um tempo de boca fechada, o que é uma enorme benesse para alguém que já não queria debater. Veja, quem Bolsonaro podia atrair com seu discurso e postura virulenta ele já cativou, para os demais, melhor o silêncio e as simbologias suscitadas pelo acontecido hoje em Juiz de Fora.

Em suma, o atentado foi altamente providencial para sua campanha. Tão providencial que alimenta especulações. Alguns se perguntam: não seria tudo uma armação?

Na minha opinião, não há armação que tenha contado com a ciência de Bolsonaro, não creio que ele seja um gigante disposto a arriscar sua vida por qualquer coisa que seja. Mas se existe a mão de alguém interessado na vitória do PSL eu já não posso repelir. Nesta terra de Toneleros, de quedas de helicóptero e aviões, nesta terra de acidentes de carro e enforcamentos de pés no chão, nesta terra, não há como dizer que conspiração não existe.

Mesmo que tenha sido uma fatalidade providencial, mesmo assim, ficou nítido que o agravamento do quadro clínico foi progredindo na proporção que se alargava a comoção. Ao longo das horas, o ferimento evoluiu de um corte superficial até se tornar múltiplas lesões e hemorragia interna. Já é evidente a instrumentalização eleitoral do atentado, que já se tornou história.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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