23 de agosto de 2018, por Oleg Abramov

Foto kk2

A decisão do MDB lançar a candidatura de Adalclever Lopes em substituição a Márcio Lacerda definiu o desenho da disputa eleitoral em Minas Gerais.

Neste momento, Anastasia está na frente das pesquisas e isso tem explicação. Até aqui só o atual governo apanhou, sem que tenha dado sua versão dos fatos. Agora que a campanha está começando, Pimentel terá a oportunidade de explicar o que recebeu dos tucanos e falar à população sobre as sabotagens que tem sofrido. Também ainda está passando desapercebida a relação que o pretendente tucano tem com Aécio Neves. Aliás, estão fazendo um grande esforço para escondê-lo. Quase dá pena de ver a situação de um homem que há quatro anos teve 50 milhões de votos e agora é constrangido a lançar sua candidatura (recuada) em um sítio escondido.

Quando Anastasia for confrontado, sua vantagem ruirá com certeza. Ter Dilma no pleito é o pior dos mundos para os tucanos. Ela é a memória viva da obra de Aécio/Anastasia: o golpe! O primeiro foi seu pivô, o segundo, seu relator.

Adalclever vem para a disputa justamente com essa expectativa, de que Pimentel vai revidar contra Anastasia e Anastasia seguirá tentando atingir Pimentel. O emedebista vem buscar o espaço de terceira via, quer se apresentar como alternativa à polarização PT X PSDB. De fato, a pontuação do ex-socialista nas pesquisas criou a sensação de que o terceiro caminho pode angariar apoio suficiente para conquistar o Palácio da Liberdade. Mas se para Lacerda já havia alguma dificuldade de convencer disso, vista sua trajetória política ter sido sempre “em relação” ao PT e ao PSDB (ou até ao inusitado PT com PSDB), para Adalclever será muito mais difícil passar a imagem de que encarna a novidade.

O primeiro e maior desafio do MDB mineiro será se desvencilhar do legado de Temer. Se Anastasia e Pimentel podem trocar entre si acusações quanto à responsabilidade pelas atuais dificuldades do estado, Adalclever terá de explicar que foi o seu MDB que mergulhou o País no caos. O povo pode ter duvida se a culpa pela crise de Minas é do PT ou do PSDB, mas é senso comum que Temer é o maior responsável pela crise que assola o País, consequentemente, o estado.

É provável que, como representante do partido de Temer, a cúpula do MDB exija dele dividir com Anastasia a responsabilidade de convencer que o golpe foi justo e o que disso resultou foi bom para o Brasil. Missão impossível a meu ver! Ser obrigado a carregar Temer já é péssimo, pior ainda é ter de defender sua política.

Mas a vida de Adalclever pode ficar ainda mais desalentadora, pois tão ruim quanto ter sua imagem associada à de Temer e sua política é a obrigação de dividir o palanque com Henrique Meirelles, o candidato da ausência: ausência de carisma, ausência de desenvoltura, ausência de proposta,… ausência de chance de convencer alguém a votar nele. Não haverá como evitar, Adalclever é o palanque do banqueiro no segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Pergunta-pegadinha: isso agrega ou repulsa votos para Lopes?!

Sendo assim, o cenário é vantajoso para Pimentel. Primeiro porque seus dois adversários fazem parte do mesmo campo político, pró-golpe, pró-reforma trabalhista, pró-teto de gastos, e, portanto, disputam os mesmos votos; Pimentel assistirá de camarote os dois defendendo a agenda de barbárie perpetrada por Temer/MDB/PSDB. Segundo porque pode apontar em cada um a responsabilidade pela crise que assolou seu governo. De um lado, a herança maldita de Aécio e Anastasia, de outro, a sabotagem do MDB de Temer e Adalclever. O atraso nos salários dos servidores e nos repasses aos municípios, as duas principais críticas feitas contra o governo do PT, são explicadas pela calamitosa situação que o PSDB deixou as finanças de Minas Gerais e devido à asfixia financeira imposta ao estado pelo governo federal comandado pelo MDB.

Então, quem perde e quem ganha com o MDB na disputa pelo governo de Minas?!

O PSDB perde porque vai disputar os mesmos votos do MDB. O MDB ganha na chapa proporcional, pois, de uma maneira ou de outra, não é ruim ter um candidato majoritário para ajudar nos votos de legenda. Mas quanto à expectativa de virar terceira via, isso não passa de ilusão. Sendo assim, melhor para Pimentel, que ganha com a diluição dos votos à direita e reforça a narrativa que coloca a eleição de Minas Gerais no contexto nacional.

É disso que se trata, a eleição de Minas será o espelho refletindo a política nacional. Cada um dos pretendentes locais será o revérbero de outro personagem de dimensão nacional: Anastasia é Aécio, Adalclever é Temer e Pimentel é Lula.

E aí?! Quem perde e quem ganha?!

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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