18 de agosto de 2018, por Oleg Abramov

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Após os registros das candidaturas, foi definido o cenário da disputa presidencial. Desde o último dia 15 o eleitor brasileiro sabe quais são os 13 candidatos. Apesar do sugestivo número de presidenciáveis, o mais bem colocado nas intenções de voto segue tendo seus direitos políticos e civis cerceados, e quem diz isso é a ONU. Está valendo tudo para aumentar as chances do golpe se perpetuar através das urnas.

As plataformas registradas no TSE e os dois debates televisionados realizados até aqui, na Bandeirantes e na Rede TV, já serviram como apresentação.

Marina (Rede) se cobriu definitivamente com as vestes do mainstream. Foi a única a ir até o fim com a proposta de reforma da previdência, defendendo explicitamente em sua plataforma o aumento da idade mínima, além de assumir a intenção de preservar a reforma trabalhista, remendando com “ajustes”.

Alckmin (PSDB) demonstrou aonde quer se situar no espectro ideológico quando definiu sua vice. Ela não deixa nada a dever para Bolsonaro. Para o tucano, não basta ser de direita, precisava ser da extrema direita. Nos confrontos face a face tem tentado demonstrar sobriedade, porém, só conseguiu parecer insosso. Justiça seja feita, temos que tirar o chapéu para sua audácia de defender as reformas de Temer, que, aliás, em entrevista nesta semana, já declarou ter o tucano como seu preferido. O golpista não deixou dúvida, Alckmin é o candidato da situação. Mas, e Meirelles?

Embora o PT esteja sendo excluído dos confrontos televisivos, o MDB tem conseguido ser ainda mais ausente. Meirelles é sem dúvida o candidato da ausência: ausência de carisma, ausência de proposta, ausência de desenvoltura, ausência de clareza. Como Temer declarou preferir Alckmin, tornou-se ausente de apoio também. Se bem que desse apoio ninguém faz questão. Só lhe sobra a cara de pau quando tenta convencer que o legado de Lula é seu.

Álvaro Dias (Podemos) se beneficiou do recuo do PSC e de Paulo Rabello de Castro. Nos debates se destacou pelos repetidos deslizes ou, talvez, distúrbios. Ganhou atenção quando anunciou seu pretendido Ministro da Justiça, Sérgio Moro. Se destacou porque essa declaração levou o juiz a se manifestar; manifestação reveladora por sinal. É verdade que esse “aprendiz de Deus” não se cansa de nos surpreender, porque ao invés de simplesmente declinar ou ficar em silêncio, o que se esperaria de um magistrado sério, deixou subentender em sua declaração à imprensa que está disposto a pensar nas “possibilidades”. Ridículo, abusivo, arbitrário… aterrorizante!

Cabo Daciolo (Patriota) é o surto em estado puro. Além da tosca pregação religiosa, que só faz os evangélicos se envergonharem, delira com Ursal e fraude nas urnas eletrônicas. Nos debates, cumpre um papel estratégico à extrema direita ao aliviar a imagem de Bolsonaro. Você já se perguntou, porque ele que é do nanico Patriota está nos debates e outros nanicos não? Porque ele cumpre uma missão: perto desse cabo, o capitão até parece civilizado. Vivemos um tempo tão sombrio que é preciso reconhecer que seu estilo convenceu alguns. Desde sua aparição na Band passou a pontuar nas pesquisas.

Boulos segue querendo o que é de Lula e do PT. Tem obtido a simpatia dos petistas ao polarizar com a direita e denunciar as arbitrariedades que estão sendo cometidas contra o ex-presidente. Até aqui não se tornou um problema para o maior partido de esquerda do País, mas não se pode esquecer o que quer: disputar a hegemonia que ainda pertence ao PT.

Bolsonaro segue se reforçando. O perigo dele alçar ao segundo turno permanece real. É preciso compreender o efeito de ter se tornado o rival de todos. Perceberam nos dois debates que Alckmin não o confrontou e que Ciro lhe emprestou gentilezas? Qual é a lógica? O candidato do PSL foi o principal responsável pela desidratação do tucano e polariza contra Ciro, sendo assim, a tendência seria atacá-lo, mas não o fazem por uma razão muito específica: fantasticamente, Bolsonaro tem cativado simpatia ao ser encurralado. Muitos têm ficado com pena dele tanto apanhar. Sua ignorância (limitação intelectual) está sendo confundida com “humildade”. O eleitor demonstra uma forte tendência a se solidarizar com a fraqueza. Os candidatos mais  experimentados compreenderam que atacá-lo cerradamente estava produzindo o efeito inverso do esperado. Ao invés de evidenciar suas fragilidades, estavam vitimizando-o.

Mas Bolsonaro fala por si mesmo, contra ele, basta ele mesmo: quando subiu o tom com Marina na frente das câmeras, mostrou o que realmente é.

Ciro Gomes (PDT) tenta sobreviver. Seu espaço ficou extremamente restringido após a frustração das alianças pretendidas. Mas está conseguindo se aprumar. Adotou um tom mais brando e tem despertado simpatia. Está conseguindo comunicar bem suas posições e teve êxito ao despertar atenção para sua proposta de limpar o nome do povo.

João Amoedo (Novo) ficou conhecido quando declarou sua fortuna. Em um país tão sofrido, parece um acinte declarar bilhões em patrimônio. Vera Lúcia vai garantir ao PSTU visibilidade, que poderia ser aproveitada como oportunidade para tentar amenizar as bobagens que fez até aqui apoiando o golpe contra Dilma. Mas não parece que seja essa a intenção, e o PSTU vai continuar delirando. Pela quinta vez, Eymael (DC) vem esquentar o nome do seu partido para mantê-lo valorizado no mercado de aluguel de legendas. João Goulart Filho (PPL) é uma novidade para o eleitorado nacional, vai se apresentar possivelmente sob a sombra do pai e com o saldo político derivado do drama familiar.

Por fim, e mais importante, está Lula. Apesar de tudo e de todos, segue candidato. O Comitê de Direitos Humanos da ONU não deixou dúvidas que impedir sua candidatura constituirá uma grave arbitrariedade. Não tenho nenhum pingo de dúvida que a posição da ONU não mudará nada, mas passa a figurar como mais uma prova de que sua prisão tem apenas um propósito: impedi-lo de chegar às urnas e interromper o golpe. Sendo impedido, Haddad e Manuela D’Ávila vão dar conta do recado.

Porém, não vivemos uma eleição qualquer. A perseguição não se restringe a Lula, mas a qualquer um que ameace o golpe. Em apenas uma semana, já se pode verificar a alta capacidade de transferência de votos de Lula para Haddad Mas novas arbitrariedades virão, não tenho dúvidas. Na mesma semana em que foi confirmado, o ex-prefeito de São Paulo já virou alvo. Temo que se a vontade popular apontar a vitória do PT, uma nova etapa do golpe ainda mais radical se abra.

Da maneira como a eleição acabou se desenhando, não há alternativas: ou o PT derrota o golpe ou o golpe destrói o PT. Os ataques permanecerão, não há espaço para conciliação.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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