5 de agosto de 2018, por Oleg Abramov

lula_ciro-600x299

Hoje o desenho da eleição 2018 está sendo decidido pelas ultimas convenções partidárias. Para a esquerda, o fato mais marcante dos últimos dias foi o pacto entre PT e o PSB. No que concerne ao seu aspecto regional, acredito ter sido um acordo razoável. Ambos saem fortalecidos em suas disputas prioritárias, o PT em Minas Gerais e o PSB em Pernambuco. No que pesem os inconvenientes dos recuos requeridos, foi, até ai, magistral. O que eu tenho sérias reservas é quanto ao seu desdobramento nacional. E é sobre seu enredo que tratarei adiante.

A neutralidade do PSB é uma condicionante equivocada, melhor seria tê-lo na chapa do PT, mas na impossibilidade, preferia vê-lo no palanque de Ciro Gomes. Explico:

Já defendi em outro texto a tese de que o PT deveria apostar em um segundo turno Lula versus Ciro. O que de fundo significa priorizar derrotar os golpistas e sua agenda de destruição dos direitos e da soberania nacional já na primeira rodada eleitoral. A meu ver, condicionar a derrota do golpe exclusivamente à vitória eleitoral do PT é assumir um risco que pode levar o próprio à ruína. Porque se o partido não lograr êxito e o golpe se perpetuar com Alckmin ou outro, o ato que sucederá a prisão de Lula pode ser a extinção do PT. Depois de tantas arbitrariedades cometidas contra as organizações dos trabalhadores, duvidam dessa hipótese?

Há quem diga que não existe espaço para dois candidatos da esquerda no segundo turno. Discordo, se considerar o fato de que Ciro é identificado como esquerda sobretudo por se apresentar como uma das alternativas à política de Temer, é perceptível que o “teto” de votos dá para acomodar dois ou até mais candidatos desse campo. Temer é rejeitado por 96% da população (82% ruim e péssimo e 14% regular), significa que há uma disposição de pelo menos 82% votar em alguém que seja contra o atual governo. Quem recusa Temer se opõe a agenda do golpe, cujos representantes prediletos são Alckmin e Meirelles. Não é por acaso que os dois não conseguiram, pelo menos até recentemente, pontuar juntos sequer 10% nas intenções de voto. Sabendo que o apoio a Bolsonaro é difuso, não vejo dificuldade em superá-lo também, caso haja uma estratégia consequente para isso. Repito, se houver uma estratégia, o que passa por não condicionar à exclusiva adesão ao PT, porque do contrário, Bolsonaro representa um risco real.

Ou seja, considerando que a maioria da população rejeita Temer, considerando que Temer é o golpe e o golpe são todos menos Lula, Boulos, Manu e Ciro, eu  vejo um largo horizonte de oportunidades para perseguir a hipótese Lula, ou eventual substituto, versus Ciro  Gomes no segundo turno. O que, repito, carrega o conteúdo de limar já na primeira rodada os candidatos do golpe.

Mas e se for um só, ou o PT ou o PDT para o segundo turno? Continuemos o raciocínio e a resposta brotará naturalmente: caso tudo dê certo para o PT, Lula é candidato e vence. Se der parcialmente certo, Lula é impedido, mas consegue transferir votos e o PT vai ao segundo turno com chances de êxito. Mas e se der tudo errado? O Partido dos Trabalhadores precisa se preparar para o pior, para as duas últimas hipóteses. Se for para o segundo turno contra um candidato da direita, e se esse for Alckmin, tem o apoio certo do PDT, PSOL e PCdoB, o que torna interessante que os três pontuem bem no primeiro; além disso, talvez também possa contar com a Rede. Se for contra Bolsonaro, até parte do PSDB pode aderir. Mas e se o PT não chegar ao segundo turno? Nesta hipótese é melhor que um dos contendores seja oposição ao golpe. E neste caso, não se enganem, não há outro, a única alternativa é Ciro Gomes. Isso porque nem Boulos, nem Manuela jogam o jogo da eleição presidencial, mas o da hegemonia na esquerda. Em outras palavras, não vão chegar ao segundo turno. Alguém se habilita a dizer que existe alguma outra alternativa além dos já elencados? Marina? Alckmin? Bolsonaro? Meirelles? Na ausência de Ciro e na falta do PT não haverá segundo turno viável para quem quer abrir uma saída contra o golpe.

Dessa tese deriva a minha preferência por um acordo trilateral, ou seja, envolvendo PT, PSB e PDT, extensível ao PCdoB. Segundo o que defendo, na impossibilidade do PSB apoiar a candidatura de Lula, sendo essa uma decisão irrevogável, seria melhor que ele desse seu tempo de rádio e TV para Ciro, em troca do respeito aos palanques estaduais prioritários. O PT faturaria com Minas, PSB faturaria com Pernambuco e o PDT seria reforçado na disputa presidencial, sem subtrair nada do Partido dos Trabalhadores, mas tirando do PSDB tempo proporcional de exposição midiática. Ainda, de quebra, a ala socialista de São Paulo, avessa ao PT, poderia ter uma alternativa a Alckmin. Isso porque o PSDB já traiu França ao lançar Dória, o que criou uma disposição de ruptura que somente não se realiza pela falta de outro palanque nacional. França e o PSB não veem Alckmin agregar, dado seu pífio desempenho nas pesquisas no estado que governou, mas, ainda assim, tem tido que engolir o orgulho e ficar com os tucanos, mesmo desrespeitados com a presença de Dória na disputa, porque não tem outro candidato presidencial para substituí-lo. Na verdade, tanto França quanto Dória, estão insatisfeitos, o único que tem levado vantagem, larga vantagem por sinal, com essa situação esdrúxula é Alckmin, que mesmo mal avaliado pelos eleitores, tem dois palanques no estado para recuperar-se.

A proposta da trilateralidade se baseia no raciocínio mais abrangente da disputa, de quem acredita que agir em duas frentes aumenta as chances de derrotar o golpe. Se o jogo eleitoral estiver sendo jogando com esse foco, Lula e Ciro não são rivais, são duas alternativas. Porém, dentro do Partido dos Trabalhadores existem duas posições nos extremos do debate, uns que preferem hostilizar Ciro, outros que defendem uma aliança formal com o PDT.

O primeiro grupo acredita que o PT precisa inviabilizar Ciro Gomes. Consequentemente, não podem facilitar sua vida em hipótese alguma. Sendo assim, pergunto: e ajudar o PSDB pode? Pois a tática adotada para enfraquecer Ciro só beneficiou o PSDB, que papou o “centrão”, tirou o tempo do PSB da programação eleitoral de rádio e TV ampliando proporcionalmente o dos tucanos e preservou o duplo palanque de Alckmin em SP. Esta é a posição que tem parecido dominar o PT até aqui e vem produzindo um risco, até recentemente pouco provável, de tornar crível um segundo turno entre Bolsonaro e Alckmin.

O segundo grupo defende uma dobradinha PT-PDT, com Ciro Gomes de vice, o que, na minha opinião, é outro equívoco. Não acho que qualquer um dos dois deva aderir ao outro. Lula tem que seguir candidato até o fim e o pedetista deve ser mantido no páreo, ambos absorvendo a maior quantidade possível de votos dos demais. Ciro pode captar os votos daqueles que não querem Temer, mas que também não admitem, neste momento, votar no PT. Sigo o raciocínio: a maioria não quer o que aí está, mas o Partido dos Trabalhadores tem sido sistematicamente massacrado, atacado em todas as frentes, e boa parte daqueles que são anti-Temer está intoxicada pelo antipetismo. Na falta de outras opções, muitos eleitores estão se rendendo aos apelos de Bolsonaro. Ciro tem chances de roubar esses votos do PSL, da mesma maneira que pode deslocar eleitores antipetistas de Alckmin.

Eu sei que parece confuso a primeira vista, mas a ideia carrega uma coerência que beira a banalidade se considerar que não é prudente colocar todos os ovos em uma única sexta.

Como esta não é uma eleição típica visto que todos os dias se produz uma nova arbitrariedade, como a recente “interpretação” do TSE de que os candidatos à vice devem ser apresentados até dia 06 de agosto (uma nova interpretação feita de uma mesma lei que vigora desde 2014, apenas para dificultar a estratégia do PT de alargar todos os prazos), não é possível atuar como se vivêssemos a normalidade. Se o maior desafio é lograr êxito na revanche contra o golpe, em 2018, a prioridade não é eleger o que se acredita ser o melhor candidato, mas eleger quem não tem compromisso com o golpe. É impedir que as forças do golpe se legitimem nas urnas.

E podem falar o que for, Ciro Gomes é o único candidato fora da trinca PT-PCdoB-PSOL que não dá qualquer sinal de disposição em pactuar com o golpe. Mais, tem potencial de eleger-se se Lula for inviabilizado. Além disso, Ciro não ameaça o PT no que lhe é crucial. Explico: Ciro e o PDT não estão interessados em obter a hegemonia da esquerda. Quem tem essa pretensão é Boulos, estupidamente admirada por parte de setores petistas. É o PSOL que nasceu de um racha contra o PT e desde seu nascimento se esmerou em combater o petismo em todos os terrenos. Diferentemente do PDT que já admitiu que seu trabalhismo foi derrotado para “os autênticos” que deram vida ao PT ainda na década de 1980. O Partido Democrático Trabalhista não disputa mais ser líder da esquerda, ao contrário, quer ser um partido da ordem, como qualquer outro “partido burguês”, nos termos trostskistas. Ciro Gomes representa o campo desenvolvimentista, portanto, do compromisso entre capital e trabalho. Por mais que atraia um setor do sindicalismo, sua ambição é ser o representante da indústria, não o representante do trabalhador. É Progressista, sem dúvida, dado que a agenda Temer (do golpe) fere de morte igualmente o trabalho e a indústria, mas não avança aonde o PT deita suas raízes, ou seja, nos movimentos sindical e popular mais combativos.

A ausência de compromisso histórico com as organizações da esquerda, que alguns mais exaltados consideram a mácula de Ciro é, desse ponto de vista, a sua maior virtude, uma vez que torna o acordo seguro para o PT: ele não é de esquerda, ele está à esquerda! Sendo assim, não querela pela hegemonia no campo do partido de Lula. Ciro é para o PT simplesmente o inimigo do meu inimigo, logo, um potencial aliado.

Mas a estratégia do Partido dos Trabalhadores tem ido no sentido oposto até aqui: pretendem inviabilizar Ciro Gomes. Isso contempla as duas alas do debate petista, ou tira o PDT do caminho ou o obriga a aderir à candidatura petista. Mas é preciso fazer um balanço: apenas Alckmin se beneficiou com isso até agora. Não é por acaso que o ex-governador de São Paulo agradeceu ao presidente do PSB pelo acordo firmado com o PT. Acredito que a cúpula petista deve estar contando que Alckmin é inviável eleitoralmente. Mas ele está longe de ser cachorro morto. A pesquisa IBOPE divulgada neste momento aponta crescimento. Eu acredito que ele é tão viável quanto o risco de ter ele contra Bolsonaro no segundo turno.

Imagine que a estratégia petista pode produzir o cenário mais catastrófico caso Lula e seu eventual substituto sejam ambos inviabilizados por mais algum novo arranjo golpista, o que não é imponderável ocorrer em face de tantas arbitrariedades já cometidas. Será que vale colocar todos os ovos em uma mesma sexta e arriscar que o segundo turno fique nas mãos da direita?

Concluo com o meu ponto de vista: Ciro Gomes não é o problema, mas uma segunda alternativa para vencer o golpe caso tudo dê errado para o PT. Portanto, não deve ser visto como inimigo e nem precisa ser seduzido (ou forçado) a uma aliança com o Partido dos Trabalhadores. O PDT precisa manter sua candidatura para que se o PT não vencer, também não seja vitorioso um representante da agenda contra o povo que tem sido perpetrada pelo golpe.

Não é hora de flertar com o perigo e nem desafiar a morte. O momento requer temperança e muito caldo de galinha.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

Comentários

comentários

  • Todos os direitos reservados a Pautando.com.br
  • Site desenvolvido pela Agência Infinit0