27 de julho de 2018, por Oleg Abramov

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As eleições presidenciais se aproximam. Em breve todos os contendores serão conhecidos e os cenários se consolidarão tornando os resultados menos imprevisíveis.

Esta eleição possui, por um lado, uma envergadura histórica porque poderá reestabelecer um governo regular, autenticamente escolhido por escrutínio popular, após o golpe que impediu a continuidade do governo Dilma Rousseff. Por outro, é marcado pela atipicidade, resultante da indefinição quanto a possibilidade do candidato preferido disputar e da nulidade política que se tornou o instituto presidência da república sob o comando de Temer.

Nesta semana a pesquisa CUT/Vox Populi (julho/2018) confirma a manutenção de Lula na liderança das intenções de voto. Nenhum espanto, uma vez que todas as consultas indicam a preferência petista. Portanto, as novidades ficam por conta das desistências e confirmações de alguns candidatos à presidência.

Entre as desistências estão a de Aldo Rabelo e de Rodrigo Maia, ambas já consideradas possíveis. Entre as confirmações estão cinco nomes homologados pelas convenções partidárias. Fazendo uma análise dos candidatos já definidos e usando como ordem de exposição o espectro político, da esquerda em direção à direita, temos:

Vera Lúcia (PSTU): vem cumprir a missão de levar à frente a construção partidária na pior quadra da história de sua agremiação. As escolhas desastradas do ultimo período o levou ao isolamento. Devido a sua desatinada aliança tácita com a direita em relação ao impeachment, o partido correu para trás e viu mitigados seus pequenos avanços no diálogo com outras forças de esquerda.

Guilherme Boulos (PSOL): não joga o jogo da eleição, mas o do futuro da esquerda. Boulos flertou com varias forças até se decidir pelo PSOL. Para mim, o entendimento resultou dos dois possuírem uma afinidade de interesses relacionados a atual situação do PT e de Lula, ou seja, Boulos, supondo que Lula está sendo enfraquecido, quer tomar seu espaço e o PSOL o do PT.

Por isso, eu advirto que para os petistas é virtualmente inviável ver Boulos com bons olhos, visto que é aquele que tem maior interesse em reduzir o prestígio do Partido dos Trabalhadores. Se tal constatação não estava clara até aqui, basta comparar com o comportamento do PCdoB e de Manuela D´avila. Enquanto a comunista tem reiterado sua disposição de abrir mão de sua candidatura em nome de uma aliança de esquerda, Boulos e o PSOL definem seu destino já nos primeiros instantes do período convencional. Aos últimos não interessa o destino do campo progressista, mas o seu próprio.

Ciro Gomes (PDT): Tem tentado constituir um polo de oposição eleitoral viável ao projeto Temer. Propõe um governo de conciliação entre capital e trabalho pelo desenvolvimento. Coloca-se mais próximo à esquerda, apesar de recente aceno ao “centrão”, o que só se deu em função da dificuldade em acertar com o PSB e PCdoB, seus aliados preferidos.

E sobre este fato em particular quero abrir um parênteses: o PT errou feio! Sua aposta deveria ser a de garantir um segundo turno Lula e Ciro Gomes, neutralizando as forças à direita já de saída. Para tanto, era importante ter atuado a favor do candidato pedetista ao invés de combatê-lo como tem sido feito. Por exemplo, já se sabe que o PSB dificilmente apoiará o PT em decorrência da indefinição do seu destino eleitoral, nestas condições, a cúpula petista poderia ter favorecido um acordo trilateral envolvendo PT, PSB e PDT, no qual os dois primeiros garantiriam certas prioridades nas disputas estaduais, Minas Gerais inclusive, passando por uma composição nacional do segundo com o terceiro. Ao contrário, o PT se esforçou para enfraquecer Ciro. Repeliu não apenas a oportunidade com o PSB como também atuou nas negociações com o “centrão”. Resultado, Alckmin, que estava praticamente inviabilizado no processo, passou a ter esperança na vitória.

Essa esdruxula opção enfraqueceu Ciro, mas o pedetista segue no páreo.

Paulo Rabello de Castro (PSC): registra-se ter tido passagem pelo BNDES e IBGE, no governo Temer; é um quadro técnico respeitável, porém sem um horizonte político muito largo. Não por sua culpa, mas dificilmente podemos crer que o PSC está na disputa pra valer. Sua motivação é parecida com a do PSTU, usar a eleição como forma de se reforçar. Em um cenário confuso, é até mais prudente disputar o primeiro turno para, definidos os nomes que estarão no segundo, determinar com quem é mais interessante barganhar apoio. Justo, mas não é esse o jogo que importa à maioria da população.

Jair Bolsonaro (PSL): É talvez a maior novidade desse pleito. Pela primeira vez desde a ditadura militar que temos um candidato que se apresenta como autenticamente de extrema direita pontuando bem nas pesquisas. Antes tivemos o Enéas, que até cresceu ao longo das disputas que participou, mas não se compara ao Bolsonaro.

Ele prejudica o PSDB a conseguir “levantar voo” nas pesquisas porque até recentemente, na falta de um candidato próprio, o eleitor de direita votava na anti-esquerda, o que favorecia os tucanos. Chama muito a atenção sua aproximação com os empresários. E isso é explicado pelo fato de Bolsonaro, de antemão, se comprometer em delegar a gestão econômica para o “grupo do mercado”, o que favorece a imagem de que ele é a melhor opção para efetivar uma agenda de livre mercado na área econômica. Só que o pacote é completo. O liberalismo econômico vem junto com o arcaísmo moral.

Essas novidades não são tão novas. Vamos seguir acompanhando o que farão Manuela D´avila (PCdoB), Henrique Meirelles (MDB) e outros. Quanto a Lula (PT) e Alckmin (PSDB), brevemente serão confirmados. Até 5 de agosto todos os nomes serão conhecidos e no dia 15 o jogo começa pra valer.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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