19 de julho de 2018, por Oleg Abramov

JairBolsonaro-CNI-2-15

Tem sido recorrente a avaliação de que a candidatura de Jair Bolsonaro não prosperará, conclusão contraditada pelo cenário político atual. A suposição era de que quanto mais se aproximasse a eleição, mais desidratada estaria sua pretensão, porém, não é o que tem ocorrido. Seu nome permanece sólido na vanguarda das pesquisas e vem encontrando adesão de importantes setores da sociedade brasileira, dos empresários inclusive.

A verdade é que neste momento Bolsonaro é o candidato mais bem cotado para representar a direita (em todas suas variações) nas eleições, e a recepção calorosa da Confederação Nacional da Indústria confirma este fato. Em recente evento com os presidenciáveis, o candidato do PSL foi o mais ovacionado dentre todos. Mais que Alckmin que, certamente em condições triviais, figuraria como predileto. Hoje a Folha de São Paulo estampa a manchete “Indústria não teme Bolsonaro, afirma presidente da CNI” e no corpo da matéria são desenrolados os argumentos que sustentam a afirmação.

É verdade que eu mesmo fiquei alarmado com o comportamento da elite empresarial brasileira. Ao saber do evento da CNI, me indaguei: como um candidato tão raso, que não consegue argumentar sobre qualquer proposta crível, pode cativar os principais homens de negócios do País? Uma pergunta que expressa a frágil compreensão que até agora eu compartilhava. Uma compreensão eivada pelo preconceito de não considerá-lo um player efetivamente competitivo devido às suas gritantes fragilidades intelectuais e morais. Dissipado o preconceito, acabei enxergando que sua aparente deficiência é, na verdade, sua grande virtude. Explico:

Na referida reportagem, os empresários demonstram não dar importância para o nível de conhecimento dos presidenciáveis. Mas como assim? Não importa que um presidente seja preparado? Aparentemente essa sentença não faz muito sentido, porém, na verdade, detém uma lógica profunda. Vejam, a classe capitalista nacional é dominada ideologicamente pelo pensamento “laisseferiano” e sua correlata ideia de “Estado problema”. Uma perspectiva que mais parece intoxicação, visto que não existe no mundo exemplar de desenvolvimento industrial que prescinda da intervenção estatal. Mas, independente dos motivos geradores dessa predileção ideológica, fato é que do ponto de vista do capitalista brasileiro a economia deve se regular por si mesma, com o mínimo de Estado, logo, sendo assim, o melhor presidente é aquele que se disponha a se afastar ao máximo dos assuntos econômicos. Consequentemente, Bolsonaro tem uma vantagem enorme sobre seus adversários, pois ele reconhece verbalmente sua ignorância sobre qualquer assunto que fuja às “frases de efeito”, especialmente sobre economia. Mais ainda, não vacila ao afirmar que em função da sua ignorância não irá “se meter” nos assuntos dessa natureza que ficarão a cargo de seus Ministros. Ora, se o Estado é o problema e, por extensão, um presidente “mandachuva” é indesejável, logo, se Bolsonaro reconhece que é incapaz de opinar em assuntos econômicos, ele passa a ser, dentro desta lógica, a melhor opção, visto que, mesmo que queira, não saberá operar a economia pela “própria cabeça”. Coisas da política: do ponto de vista dos empresários, intoxicados pela ilusão liberal, a incapacidade, uma deficiência aparente, tornou-se a principal virtude do presidenciável.

Claro que não basta isso. O predicado da ignorância, já muitas vezes usado preconceituosamente contra Lula, apenas pode ser apreendido como virtude pelo empresariado se for da parte de um funcionário público concursado que, por isso, apresenta consigo a proximidade de classe que um operário não possui. Além disso, é preciso que esteja acompanhado por dois outros fatores. O primeiro é o reconhecimento dos nomes daqueles que ficarão a cargo de fazer no lugar do presidente, e não sob as ordens dele, a gestão da economia. Consequentemente, as atenções giram do presidenciável para aqueles que efetivamente decidirão em um eventual mandato Bolsonaro e ali estão alguns expressivos personagens da escola neoliberal encabeçados por ninguém menos que Paulo Guedes, cuja trajetória intelectual se conecta a alguns oásis do pensamento liberal nacional, como PUC-RJ, FGV-RJ, Instituto Millenium e Insper, e que já admite manter a equipe de Temer caso se torne o Ministro da Fazenda.

O segundo fator é o da viabilidade eleitoral. E aqui temos uma situação intrigante: entre todos os candidatos, os que se encontram com maiores chances na disputa são Lula, Bolsonaro, Marina Silva e Ciro Gomes. Com exceção de Bolsonaro, não há nenhum outro nome que se apresente até agora viável para representar a direita, embora Marina esteja se esforçando para ocupar este posto. Na ausência de Alckmin, Meirelles, Maia ou outro exemplar da dita centro-direita, Bolsonaro se torna a única opção sólida capaz de garantir que, no segundo turno, não estejam representados apenas candidatos de esquerda ou com uma trajetória popular que possa tornar dificultosa a adoção de uma agenda social mais amarga. Sejamos honestos, dentre os quatro, quem você acha que terá maior condição de detonar as conquistas dos trabalhadores? Quem pode fazer as reformas trabalhista e previdenciária sem ter que prestar explicações aos seus eleitores de primeira hora? Bolsonaro recruta seguidores entre aqueles que acreditam com convicção de aço que os direitos são “regalias”. Os demais têm contas a prestar com organizações populares, Bolsonaro não.

Interrompo para um breve parêntese: Bolsonaro é o principal fator explicativo do fiasco da centro-direita. Nas eleições das ultimas décadas, a ausência de um candidato de extrema-direita levou os segmentos mais conservadores do eleitorado a despejarem seus votos nos candidatos que se opunham à esquerda. Este fenômeno serviu para alavancar os presidenciáveis do PSDB que se tornavam “votos uteis” ao cativar de saída 15% ou 20% nas pesquisas preliminares de intenções de voto. Se Bolsonaro não existisse, Alckmin ou Meirelles certamente estariam neste momento pontuando melhor e, sendo assim, poderiam caminhar com maior desenvoltura nas negociações de apoio que, por sua vez, são o fator cuja ausência, neste momento, cria um horizonte pouco promissor de viabilidade eleitoral.

Daí partimos para o terceiro fator que está cativando o empresário brasileiro: a agenda conservadora nos campos socioeconômico e cultural. Ambas convergem para nossas raízes escravistas que têm sido muito bem caracterizadas pelo Professor Jessé Souza (autor d´A Ralé Brasileira e outros): a mentalidade das nossas elites é pouco afeita à agenda civilizatória, para não dizer que a repudia. Portanto, quando Bolsonaro se apresenta como o cara de “bandido bom é bandido morto” e outras sentenças do tipo, se conecta diretamente a esta noção, pré-reflexiva inclusive, de que o pobre não é um igual. Consequentemente, o empresário (que poderia ser um membro da classe média também) não repugna os aspectos mais asquerosos de sua oratória desataviada e são capazes até de aplaudir alguns de seus devaneios mais toscos.

Na política tudo deve ser apreendido em seu contexto, fora dele, os fatos podem parecer não fazer sentindo algum. Da mesma maneira que o contexto explica como foi possível que a ascensão do nazismo se desse no País considerado mais intelectual da Europa, a predileção aparentemente imponderável da elite empresarial por Bolsonaro pode ser explicada se considerados os fatores que conectam o candidato às preferencias e aspirações dessa elite.

De fato é estranho, mas tem lógica e é, sobretudo, assustador.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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