10 de junho de 2018, por Oleg Abramov

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Como interpretar as posições dos candidatos à presidência da república com base na pesquisa Datafolha divulgada neste domingo, 10/06?

A primeira conclusão é a liderança inconteste de Lula. Que não venham dizer que perdeu pontos da última pesquisa para esta, encarcerado e atacado dioturnamente pelos veículos de comunicação, o resultado pré-eleitoral é excepcional e revelador quanto às motivações de tirá-lo da disputa.

Em condições de normalidade democrática, o PT permaneceria na liderança das eleições para o Executivo nacional como vem ocorrendo desde 2002. Os cenários desenhados pela pesquisa sem o candidato realçam os efeitos do golpe na democracia brasileira: parte relevante dos eleitores não migra para nenhum outro nome. Ou seja, o efeito da retirada de Lula do páreo amplifica a descrença na política e se expressa nos votos brancos e nulos que chegam a índices absurdamente elevados.

Verificando o desempenho de Jaques Wagner e Fernando Haddad, nas simulações de um eventual “plano B” do PT, fica evidente que a tática de permanecer insistindo na candidatura Lula é acertada. Neste caso, o dilema é, se ao final, Lula for definitivamente impedido de disputar, como o PT se portará para impedir que o pleito favoreça as forças à direita. Neste caso, como tenho insistido, penso que o PT tem que desenvolver uma tática de transferir votos a um candidato que possa representar o campo progressista, sem para isso abandonar a candidatura Lula. Movimento delicado e nada fácil, mas fundamental para impedir que as forças do golpe alcancem a legitimidade que apenas uma vitória nas urnas pode lhes conferir. Creio que é justamente por refletir sobre esse cenário que o próprio Lula realizou uma importante inflexão em relação a Ciro Gomes neste final de semana.

Se o PT é o partido que registra o melhor resultado, as forças do golpe apresentam os piores desempenhos, tanto em termos absolutos quanto relativos. O primeiro dado que tem relevo é o índice de rejeição de Temer. Agora definitivamente consolidado como o ocupante da presidência mais impopular da República Nova. Se houvesse uma serie histórica de largo prazo é provável que ocuparia o posto de mais rejeitado da história do Brasil. O efeito que produz na disputa de outubro é preparar um cenário desalentador para Henrique Meirelles que vem se consolidando como candidato do MDB. É bem provável que de agora em diante, ele tente se descolar progressivamente do governo Temer, o que vai render rusgas internas. Meirelles agora seguirá em duas frentes para melhorar suas chances: primeira, construir fortes palanques para se escorar em prestígios alheios, posto que ele próprio não dispõe de nenhum; segunda, que chega as raias do absurdo, tentar aproximar sua imagem da de Lula, relembrando seus tempos de presidente do Banco Central na era Luiz Inácio. Isso se a candidatura não naufragar antes.

Outro que vem se esfarelando é o PSDB. A própria Folha de São Paulo comparou o desempenho de Alckmin com a de todos candidatos tucanos nas mesmas condições, ou seja, 4 meses antes da disputa, demonstrando que o PSDB nunca esteve tão fraco. Com 7% de intenções de voto, nesta altura do campeonato, só parece estar melhor que Mario Covas, que registrava 5% em junho de 1989. Parece, porque não está: na época de Covas, o PSDB era um partido recém fundado, que se encontrava em luta contra o “quercismo” e ainda não alcançara hegemonia em São Paulo, seu ninho original. Alckmin teria a obrigação de registrar resultados muito melhores visto que acabou de sair do governo do estado de São Paulo, elegeu recentemente um correligionário prefeito da capital, conta como um partido que esteve no segundo turno em todas as disputas nacionais desde 1994, além de ter ocupado por duas vezes a presidência e possuir uma máquina eleitoral nacionalizada.

O cenário é tão ruim para as forças que tomaram parte no golpe, que nenhum de seus principais porta-vozes consegue se tornar competitivo. Resta apenas Bolsonaro. Nada absurdo, o golpe sempre cria seus monstros. Janaína Paschoal e Bolsonaro são duas expressões que retratam com muita coerência a sandice que tomou conta do País de 2015 para cá.

E é a partir desse ponto que quero me concentrar. O manifesto que chama a reflexão das forças de “centro” (que na verdade são de direita) para uma convergência, para além de todas as conveniências tucanas, é uma forma de alertar e persuadir as forças conservadoras quanto às consequências de manterem-se fragmentadas. Domina neste momento a preocupação de ficar fora do segundo turno. Neste caso, para além dos nomes preferenciais, Meirelles e Alckmin, está crescendo uma tendência para a qual a esquerda deve se atentar imediatamente: a conversão à Marina Silva.

Explico: o pior dos mundos para as forças do golpe é um cenário com Lula no páreo, o segundo pior, é o segundo turno entre Bolsonaro e Ciro Gomes. Como ensinado por Lenin, não há vácuo na política; portanto, consolidando a tendência demonstrada pela pesquisa, ou seja, de que nenhum candidato preferencial é viável, o capital possivelmente convergirá para outro e não nos enganemos, Bolsonaro não é crível. A hipótese de apoio a Bolsonaro é muito remota. Neste cenário, Marina Silva torna-se a alternativa.

Chamo atenção para este fato porque a candidatura da Rede cria uma profunda confusão. Marina Silva é capaz de trafegar eleitoralmente no campo progressista sem dificuldade, dada sua origem social e política e sua pauta ambiental. Porém, suas posições recentes e, principalmente, sua relação de classe não a credenciam como uma candidata que represente o campo popular.

Fiquemos atentos, a pesquisa Datafolha revela o risco de Marina Silva se tornar em breve a alternativa das forças que conspiraram contra a democracia e que pretendem perpetuar o golpe.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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