31 de maio de 2018, por Oleg Abramov

o processo capa

Assisti ao documentário “O Processo” de Maria Augusta Ramos. Gostei! Apesar de registrar apenas os lances finais do golpe, já na fase do Senado, e focar em poucos personagens, a produção consegue apresentar bem os traços mais importantes daqueles momentos finais.

Não há narrador, apenas sucessão de imagens. Os fatos bastam por si mesmos, apresentam o enredo e contam a história.

Quando a câmera focou nos rostos daqueles que participavam de cada lado das manifestações, deixou evidente as preferências de classe envolvidas.

Ali estavam os juízes de Dilma: Romero Jucá, Aloysio Nunes, José Serra, Ronaldo Caiado, Alvaro Dias.

Janaína Paschoal representou a face mais perturbadora do golpe: olhar vidrado, gesticular histérico, argumentação rasa, oscilação de humor… risos, caretas, lagrimas… A única aparição de Aécio foi singular. Dela se pôde ver explicitas suas motivações mais intimas: nos olhos, o desejo de vingança estampado, nas palavras, a verbalização da magoa de ter sido derrotado na eleição presidencial.

Gleisi Hoffmann e Lindberg Farias aparecem no primeiro plano da tropa de defesa na arena política. Qualificados, mas massacrados pelas manobras da comissão do Senado que produzia o relatório do impeachment. José Eduardo Cardoso, o defensor na arena jurídica, demonstrava compreender a envergadura histórica daquele momento. Protagonizou dois pontos altos da trama: quando rebateu os argumentos do relatório Anastasia e quando restringiu a defesa final de Dilma, já nos derradeiros momentos da decisão, a poucas palavras que recuperaram a trajetória da presidenta e prenunciava como aquele momento seria compreendido pelas futuras gerações.

O duelo entre José Eduardo e Janaína Paschoal, conformou o climax da trama.

O filme também conseguiu captar bem os erros do PT. Primeiramente, nas avaliações equivocadas que vinham sendo feitas no curso do processo no Senado, mas também através de duas falas seminais, uma de Gilberto Carvalho e outra de Gleisi Hoffmann. Alias, essa mulher conquistou o meu respeito. Sua discrição costuma ofuscar uma sabedoria que o filme foi capaz de revelar.

A protagonista Dilma aparece sempre engasgada nas frases que não consegue dizer. Ali também ficava evidente que sua dificuldade de se comunicar pesava muito mais do que se pode perceber em uma primeira, e menos atenta, análise. A incapacidade de expressar seu pensamento em palavras foi um fator determinante, não para impedir o curso do golpe, mas para desnudar a natureza daqueles acontecimentos.

Obvio que para compreender o golpe, falta muito: o filme não aborda o judiciário, a imprensa, o capital. Limitar-se ao que apresenta em suas duas horas, produz o risco de tomar aquele como um golpe parlamentar, o que não foi. Porém, naquilo que se propôs, e como parte da narrativa histórica que precisa começar a ser construída para explicar ao futuro o que vivemos naquele momento e agora, o filme foi muito bem sucedido.

Por fim, depois da sessão tive uma sensação triste, como se “O Processo” fosse a parte dois de outro documentário, o “Entreatos”, dos bastidores da eleição do Lula. A tristeza decorria do temor que o “Processo” estivesse registrado o final da história que o “Entreatos” introduziu. Tomara que não se trate de uma história de duas partes, mas que seja uma trilogia, e que não tarde a haver uma parte três, de preferência, com final feliz para o povo brasileiro.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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