20 de maio de 2018, por Oleg Abramov

Perfil-Profissional

Ainda muita coisa vai acontecer até a definição das candidaturas à presidência. Algumas destas já podem ser dadas como “balões de ensaio”, outras são possíveis, algumas prováveis e outras antecipadamente certas.

Exemplar mais ilustre do primeiro grupo, dos engodos, é Temer. Impossível tomá-lo seriamente como candidato. Dada sua rejeição, é virtualmente impossível conceber que seu próprio grupo, marcadamente pragmático, irá arriscar ir para a disputa tão mal posicionado. Ao contrário, é justamente devido a sua habitual pragmática, que Temer está “esquentando” seu nome para negociar apoio ulterior. Difícil saber quem pode querê-lo no palanque, porém, possuir a máquina do governo federal ao lado não é de pouca importância.

Entre as candidaturas possíveis, mas ainda não dadas como certas, está a de Lula. O PT já demonstrou que vai levá-la às últimas consequências. Estratégia adequada a meu ver, posto que assim o PT apenas ganha, como discuti no artigo anterior. Ganha no seu maior desafio que é o de manter a coesão interna, ganha administrando seu protagonismo. Mais ainda, se ao final a inscrição for bem sucedida, há fortes chances de vitória, mesmo da cadeia. Mesmo sendo impedido, o PT ganha, posto que a tese de que há arbitrariedade, de que Lula e o PT sofrem verdadeira perseguição política, se reforça.

A decisão do PT de ter Lula candidato está definida, já a possibilidade de garanti-lo na concorrência foge ao seu poder. Por isso, Lula segue figurando entre os possíveis. Outro candidato igualmente possível, mas não provável, é Rodrigo Maia do DEM. O candidato e seu partido não demonstram intenção de disputar a qualquer custo. Na verdade, não passava pelos planos dos Democratas ter candidato este ano. Foi a conjuntura do ano passado, aparentemente favorável, quando os holofotes iluminavam o presidente da Câmara, que o partido passou a explorar esta hipótese. Na época, vislumbrava-se a chance real de Rodrigo se tornar o nome do campo governista, ainda sem saber do fiasco que acabou se tornando o governo Temer. O DEM foi tomado pela sensação de oportunidade. Mas de lá para cá as coisas não deram nada certo para a legenda: a relação Maia-Temer azedou, o candidato mal pontuou nas pesquisas e os palanques estaduais estão fragilizados e embolados. Resultado: pode ser que em breve o partido reavalie e decida por outro caminho.

Henrique Meirelles é um outro exemplar do mesmo tipo. Ele quer ser candidato e fará tudo o que estiver ao seu alcance para lançar-se. O que refreia suas pretensões é a limitada disposição e ousadia de seu partido, o MDB. Estivesse em outra legenda, eu o teria como certo no páreo. Embora, tendo tempo de TV, apoio do setor financeiro e a máquina do governo federal a seu favor, os caciques do MDB tem preferência por embarcar em alguma candidatura mais competitiva, visto que tem muito a perder: com candidato fraco pode colocar em risco a bancada parlamentar, perder espaço nos estados ou mesmo, o maior dos temores, ficar fora da coalizão do próximo governo. O que separa o destino de Meirelles será o comportamento pré-eleitoral expresso nas próximas pesquisas. Se continuar tão mal, é remota a chance de vermos sua foto na urna eletrônica.

Collor busca na eleição redenção. Tenho duvidas que leve até o fim a pretensão de ser candidato, mas é igualmente possível que chegue a setembro. Aqui reina o emocional, ou melhor, o passional; é difícil prever as ações de alguém dominado pelo desejo de não ser o que se tornou. Impossível predizer o que se passa em uma mente atormentada pela tragédia grega que foi sua trajetória política e mesmo sua vida.

Entre os candidatos prováveis figuram, Boulos (PSOL) Manu (PCdoB), Vera Lúcia (PSTU) pelas razões explicadas no artigo anterior. O PCO, não se apresentará este ano, preferiu adotar a palavra de ordem ”ou Lula ou nada!”; com coerência, não reconhecerá as eleições se Lula for impedido de participar. Álvaro Dias (Podemos) e Aldo Rebelo (Solidariedade) estarão na disputa, ambos largaram suas legendas históricas e pularam até encontrar cada qual um partido que lhes proporcionasse a chance de disputar. Os dois já mostraram a que vieram e não recuarão. Flávio Rocha (PRB), por sua vez, vem cumprir missão dada por Edir Macêdo com o propósito de avançar no projeto de poder político que a Igreja Universal tem perseguido com sucesso.

Também entre os prováveis temos: Amoêdo que é o rosto que substitui o de Luciano Hulk na apresentação da agremiação Novo para o eleitorado. Paulo Rabelo de Castro troca favores com o PSC, ele se tornando uma figura conhecida nacionalmente, o partido mostrando algum peso eleitoral para manter parte de seus quadros, reduzidos pela debandada ocasionada por Bolsonaro.

No grupo das candidaturas prováveis estão os partido que procuram ganhos laterais na visibilidade que uma eleição nacional proporciona. Estão focados em aparecer para valorizar-se no mercado partidário. Me refiro a mercado no sentido literal! Alguns destes assumem sem muito pudor sua natureza de ser apenas um produto para ser comprado e vendido, ou melhor, alugado. São legendas que protagonizam negociatas que operam no underground da política com “p” minúsculo. Embora não se possa negar que alguns dos candidatos deste grupo estejam apostando em uma eventual “zebra”, permissível no contexto de uma eleição tão atípica como será a deste ano. De toda maneira, são todos igualmente candidatos bem prováveis.

Mas os mais candidatos entre os candidatos (os “candidatíssimos”, eu diria); aqueles que realmente estão no páreo, disputando desde já, fortemente motivados pela expectativa de vencer são: Alckmin, Marina, Ciro e Bolsonaro.

Geraldo Alckmin, vem com o capital do partido que sempre esteve entre os dois mais bem colocados em eleições presidenciais desde 1994 e com a máquina paulistana (municipal e estadual) trabalhando a seu favor. Superou os tucanos adversários e mantém-se como potencial “voto útil” da direita. Ou seja, ele aposta que, caso as eleições fiquem tumultuadas, poderá crescer se for capaz de figurar no imaginário dos segmentos conservadores como o “voto lúcido”, oposto aos riscos de vitória da esquerda ou de algum “aventureiro”. Mas é verdade que os escândalos envolvendo o PSDB, seus correligionários mineiros e paulistas e, como ele próprio já tem sido muito citado em mal feitos, suas chances podem minguar no processo. Mas salvo algo muito grave, ele estará na urna eletrônica.

Mariana Silva, tem no currículo duas eleições nas quais pontuou bem. Pela primeira vez virá com seu partido, a REDE, e com uma certa áurea de outsider, posto que não é muito identificada com a política profissional, embora seja um exemplar inconteste dessa espécie. Não está envolvida em escândalos, isso conta bastante neste momento. É bem quista pelo mercado, sendo evangélica, aproxima-se de setores conservadores e dialoga com a esquerda ao defender causas identificadas com o campo progressista. Suas maiores deficiências decorrem dessas mesmas virtudes: como é um pouco de cada coisa, tem dificuldade de convencer o que é de fato. Também lhe subtraem pontos, seu estilo discreto, que destoa do acirramento dominante na atualidade e a memória do apoio a Aécio Neves na última eleição, que certamente será explorada no horário eleitoral.

Ciro Gomes, também está com “sangue no olho”. Há pelo menos dois anos ele tem esquentado seu nome, disputando um espaço à esquerda, mas com forte pretensão conciliatória. Não a conciliação entre campos políticos, mas entre capital e trabalho, bem ao estilo do trabalhismo nacionalista. É o que mais bem se posiciona como player de centro esquerda: agrada aos afeitos ao discurso progressista sem produzir desconfiança quanto a manutenção dos direitos de propriedade. Seu temperamento, tende a ser, talvez pela primeira vez, um ponto favorável. Em uma época marcada por humores acirrados, sua postura belicosa e língua ferina lhe conferem vantagens. Seu estilo agrada os indignados à esquerda e esquenta plateias. Ciro e Bolsonaro têm muito em comum no estilo aguerrido, porém, a inteligência acurada de Ciro lhe dá uma enorme vantagem em relação ao “brigão” de direita.

Por fim, tem-se o supracitado Bolsonaro. Talvez o mais inovador nesta eleição seja este. Até recentemente, o eleitor mais reacionário tinha de contentar-se em votar no PSDB, mas agora tem a oportunidade de expressar sua preferência. Candidato declaradamente conservador, com capacidade de comunicar suas posições com clareza e dialogar, ainda que na superfície, com os anseios histéricos da intoxicação antipetista e com as demandas concretas da classe média amedrontada pela violência. Acredito que pontuará bem, mas tende a se desidratar no correr da campanha. Esta é a aposta de Alckmin. Mas também existe o risco de estar no segundo turno, especialmente se Lula for retirado da disputa. Resta saber, se isso ocorrer, com quem ele disputará: PSDB, Marina ou Ciro. Ou quem sabe, com Meirelles, se este se viabilizar.

A meu ver, neste momento, esta deve ser uma preocupação central dos eleitores e, principalmente, dos militantes de esquerda. Imagine se escolhas erradas daqui até as eleições nos levarem a vislumbrar Bolsonaro e Meirelles disputando nosso destino.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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