21 de agosto de 2017, por Oleg Abramov

Trotsky

Nesta data, 77 anos atrás, a voz de Leon Trotsky era calada. A imagem que testemunhei em Coyoacán, no ano de 2012, das balas cravadas nas paredes da fortificação improvisada que foi sua derradeira morada, e que se encontra preservada ainda hoje, me fez compreender muito mais o que Trotsky representou do que seus textos podiam falar.

Um agente do regime soviético conseguiu ceifar a vida de seu maior oponente, mas não fez desaparecer seu pensamento. De lá para cá, o movimento trotskista se tornou um dos (ou o) mais perseguido em escala internacional. Além dos governos a serviço dos habituais inimigos de classe, nas suas variantes democrática e fascista, também os governos do bloco liderado pela União Soviética buscaram eliminar seus signatários. Entretanto, talvez o golpe mais brutal desferido contra o trotskismo tenha sido dado de dentro para fora: os sucessivos rachas, divisões e expurgos internos levaram-no à pulverização, diminuindo sua força e capacidade de intervenção nos acontecimentos políticos mundiais.

Mesmo assim, o trotskismo permaneceu vivo, diluído e disperso, mas sempre buscando dar uma envergadura mundial à luta revolucionária do proletariado.

Trotsky não era um homem sobrenatural, a mitificação de sua imagem e pensamento são produtos do trotskismo e não correspondem aos propósitos do velho líder russo. Foi um homem dedicado integralmente a uma causa e dotado de uma mente brilhante, mas, como qualquer ser humano, errou.

Sua estatura de eficiente homem de ideias e ação foi ao mesmo tempo que uma virtude a razão de seu fracasso.

Ouso dizer que o maior inimigo de Trotsky não foram seus adversários de classe ou no partido, mas seu próprio ego. A autoconfiança demasiada, resultante da convicção de seu estatuto histórico lhe ofuscou a visão. Pensava que seus dotes eram recursos políticos suficientes para lhe assegurar uma posição no comando da URSS e na testa do movimento operário mundial. Ao ocupar exclusivamente do destino da revolução não se atentou para a conspiração palaciana que se processava a sua volta.

Enquanto Trotsky se isolava em seus estudos e dedicava-se integralmente às ações macroscópicas da Revolução Russa, seu principal, e até então oculto, oponente ocupava-se de agrupar em torno de si aliados. Contrastando sua imagem com a do imenso personagem, ganhava espaço progressivamente no Comitê Central do partido. Foram os cortejos pessoais, o comportamento discreto e a aparente limitação intelectual que tornaram Stalin poderoso o bastante para se tornar o chefe absoluto do partido e dono do destino de milhões.

 Trotsky, ao mesmo tempo em que era admirado, atraía ressentimentos, inveja e, sobretudo, temor nos demais dirigentes partidários que viam nele um elemento mais perigoso e incontrolável que o discreto e aparentemente limitado Stalin. A fé de que outros tinham preocupações universais como as suas, fez Trotsky cego na compreensão das motivações vis que habitam o intimo da alma humana. Trotsky compreendia muito daquilo que inspirava as massas a agirem como ator coletivo. Demonstrou grande capacidade de mover multidões, conduziu um exército à vitória e ajudou a fazer toda uma nação se mobilizar por uma causa que ele tão eloquentemente defendeu, mas, contraditoriamente, conhecia pouco das pessoas em sua dimensão privada. Foi sua inabilidade de lidar com os caprichos do espírito egoísta e invejoso, a principal razão que explica a súbita ascensão de Stalin e sua precipitada ruína no politiburgo soviético.

 Depois de torna-se minoritário na direção do partido, foi sendo tolhido, enfraquecido até ser finalmente retirado de cena. Após seus inimigos conseguirem impor-lhe o isolamento no Comitê Central, o degredo não tardou. Daí para frente, os desdobramentos em desfavor de Trotsky se aceleram: do banimento ao expurgo de seus aliados, daí à perseguição intelectual, desta à eliminação física. A morte o rondou: levou aliados, familiares, até ele próprio.

Ele desconsiderou seu ensinamento nos tempos da Guerra Civil: a atenção deve incidir sobre os detalhes. De maneira prepotente, não se atentou ao detalhe, aos movimentos sorrateiros, aos cochichos, às relações humanas privadas. Trotsky via tudo aquilo como mesquinho e pequeno demais perante a imensidão de sua missão histórica. Erro fatal…

Nas décadas que se seguiram percebo que as diversas correntes trotskistas passaram a cultivar essa mesma arrogância.

 A sensibilidade com as carências das massas, a defesa emocionada das causas coletivas, o amor fraternal à humanidade se expressam menos nas sentenças das teses das diversas variantes do trotskismo que a soberba autoproclamação.

Submergem na “moral burguesa” (nos termos do próprio Trotsky) ao tentar atingir o orgulho pessoal de seus adversários. Os expurgos que vitimaram o próprio mestre é recurso usual de suposta purificação programática. Muitos “camaradas”, ao mesmo tempo em que incorporam hábitos pequeno burgueses, se outorgam o lugar de ditar em tom professoral aos operários a descrição de sua própria realidade. Tomam a posição de guia intelectual e proclamam o caminho da libertação às massas.

A elite trotskista, não admite que a ausência da revolução resulte da vontade racional das massas. Para eles, o povo é estéril: é vitima ou é incapaz. Como a realidade não se encaixa em suas teses, descrevem os trabalhadores como pobres ludibriados ou imbecis. Não admitem que ao negar a revolução, as massas podem ter feito uma escolha intencional, optando por conquistas gradativas, no lugar de enveredar pelo arriscado caminho da guerra de classes. Se a opção é adequada ou não, cabe a cada um avaliar e buscar os argumentos mais contundentes para convencer. Mas o trotskismo tende a preferir classificar de maneira simplificada os diferentes: se não é “idiota”, é “traidor”.

Quando estive no México visitando sua singela morada final, com suas gaiolas de coelhos, talheres, louças, escrivaninha, percebi o lado humano de Trotsky, admirável e imperfeito é assim que o vejo.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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