5 de fevereiro de 2015, por Fernando Cançado

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Lançado na França em 1967 o livro a “A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO” do autor francês Guy Debord foi um importante instrumento de que lançou mão os estudantes em maio de 1968 em Paris uma vez que “ que a obra de Debord incita a todos numa luta acirrada contra a perversão da vida moderna que prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo”. As idéias de Debord expressas neste livro, após 48 anos, ainda continuam atualíssimas, mostrando-nos cada vez mais o poder das mídias.

Nos últimos anos temos presenciado pela imprensa brasileira (televisiva e escrita) matérias que dizem respeito à violência: rebeliões nas antigas FEBEM´s, chacinas em vários pontos do país e no RJ o confronto constante entre a policia,“traficantes” e milícias. No cotidiano carioca, a cada incursão da polícia, conta-se os mortos nos morros às dezenas. Facções criminosas apoderaram-se de parte das grandes cidades e dos presídios (federais e estaduais) ordens são emanadas para ações criminosas em todo país. Tamanha violência já não nos comove tanto. Para quebrar este ritmo, somos frequentemente brindados com a violência da corrupção de nossas elites: “mensalão”, diversas operações das policias federal e estaduais (Anaconda, Parságada, Pegasus, helicoca, Carlinhos Cachoeira e atualmente a operação Lava jato etc…), a violência da dengue, frente à omissão criminosa dos nossos governantes e por último, a crise hídrica e muito mais.. Usa-se o dinheiro publico como se fosse privado, num cinismo descarado, típico de uma elite inconseqüente e desprovidas de valores éticos. Assistimos a tudo, praticamente impassíveis bombardeados por imagens, sem uma atitude crítica frente aos acontecimentos, manietados pela mídia, principalmente a televisiva. A violência corriqueira, assassinatos de todas as formas, torna-se um espetáculo de 2ª. Pela compulsão à repetição de cenas, ela é vulgarizada e por conseqüência, banalizada.

Os casos de corrupção perpetrados pelas nossas elites, se parecem de forma espetaculosos com os dramalhões mexicanos. Assim, A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO torna-se o próprio espetáculo, onde os indivíduos “são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência real.” Segundo Debord, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens”. A imagem torna-se objeto de consumo e o dialogo pessoal que antes existia, passa a dar lugar a diversas formas de manipulações midiáticas e a internet através das redes sociais torna-se um instrumento de isolamento e ao mesmo tempo de mobilização altamente manipulativa.

A reprodução da notícia é feita pela profusão de imagens e mensagens ambíguas e dicotômicas. Assim, independente da culpa, a conseqüência é que as imagens são invasivas e muitas vezes as vidas das pessoas são esmiuçadas e super-expostas, de uma violência brutal, gerando nas massas uma visão deturpada descentrada da realidade. Em um momento temos certeza absoluta da culpa de determinado fulano, em outra, os fatos apresentados já não nos dão tanta segurança. A “comoção nacional”, conforme jargão televisivo, foi concebida e é mantida pela própria imprensa na sua perversa busca por audiência. Nesta condição, os seres humanos são “coisificados”, ou melhor, imagens a serem consumidas e descartadas no momento seguinte. São como objetos que se usa e joga-se fora. E muitos perseguem o sucesso instantâneo, os tão famosos 15 minutos de fama. Por isto a multiplicação de personagens querendo o seu quinhão imagético: delegados de polícia, promotores, advogados de defesas, ministros do STF, políticos e curiosos de todos os naipes e matizes. A televisão, segundo Eugenio Bucci, é a “máquina de teatralização do sofrimento humano, síntese involuntária de uma relação social mediada por imagens, que cumpre este papel”, num jogo sórdido de imagens, manipulando a massa amorfa de telespectadores inserindo se também os anônimos da internet.

“Narcisismo em tempos sombrios” é o titulo de um clássico artigo do Psicanalista Jurandir Freire Costa. Narcisismo como sintoma de cinismo, perda de ideais, perda de horizontes políticos, onde “a cultura narcísica da violência”, nutre e é nutrida pela decadência social e pelo descrédito da justiça e da lei. Segundo ele, “os traços da cultura da violência são diversos e aparecem em vários planos da vida sócio-cultural.”, onde os indivíduos além da alienação, vivem numa sociedade em que a vida real é pobre e fragmentada no sentido de perdas de laços sociais, de compromissos coletivos e assim os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens (significantes) do que lhes falta em suas vidas ou ter a ilusão de que as mobilizações através das redes sociais lhes darão um significado às suas existências.

A repetição compulsiva das imagens,desperta nos telespectadores o gozo perverso “voyeurista”, sádico e ao mesmo tempo masoquista, como nos ensinou Freud, uma identificação com os algozes (autoridades querendo aparecer mais do que os protagonistas, os linchadores midiáticos, os voyeurs etc) que ele ao mesmo tempo odeia, por sentir-se como eles, vitima.

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Sobre o Autor

Fernando Cançado

Coordenador Geral do SINTTEL MG- Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações de Minas Gerais. Coordenador Administrativo da Escola 7 de Outubro da CUT e também Diretor da FITTEL- Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações. Oriundo do Sistema TELEBRÁS, ex trabalhador da TELEMIG e atualmente empregado da OI/TELEMAR desde 1974, é técnico em Telecomunicações e Psicólogo com formação em psicanálise.

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