2 de fevereiro de 2015, por Ana Paula Souza

Femin

A participação intensa das mulheres nos episódios de luta que marcam a história do nosso país é invisibilizada, em muitos momentos, diante da ideia de superioridade masculina. Encontramos com muita facilidade referências aos homens como ícones históricos, as mulheres quando aparecem são retratadas como coadjuvantes, mesmo quando tiveram papeis essenciais.

A subalternização das mulheres nos movimentos de organização política dos trabalhadores tem sido naturalizada e justificada por argumentos pautados no senso comum, como a pouca presença delas nas atividades econômicas mais estruturadas e organizadas, a instabilidade da carreira profissional devido à maternidade e o desinteresse pelas atividades sindicais. Será?!

O que se constata é que os espaços profissionais disponíveis para as mulheres são os mais precarizados, mediados pela divisão sexual do trabalho e pela dupla jornada desempenhada por elas. Os empregos ocupados pelas trabalhadoras também são caracterizados pela instabilidade, informalidade e o turno parcial. Mesmo quando o emprego se dá no setor formal da economia, a falta de reconhecimento e perspectiva de ascensão profissional, bem como a baixa remuneração colaboram para reduzir a participação das mulheres nos movimentos de organização política dos trabalhadores.

A partir da relação conflituosa entre as classes sociais, permeada pela heterogeneidade e complexidade que as compõem, são estabelecidas as relações sociais na sociedade capitalista. Cabe salientar, que as relações entre as classes também são influenciadas pelas relações de poder e dominação do sexo masculino sobre o feminino, o que atende perfeitamente aos interesses da classe dominante, propiciando a realização do processo de acumulação, a partir da exploração mais intensa das mulheres.

Em diversos espaços observamos a dominação do homem sobre a mulher, considero aqui a superioridade no campo político, especialmente nos movimentos de organização dos trabalhadores, como os sindicatos. Compreendendo que a sujeição da mulher ao homem não se originou no capitalismo, já que o domínio masculino tem se estabelecido há milênios. No entanto, nesse sistema os desdobramentos dessa dominação, que ocorre tanto nos espaços públicos quanto no âmbito privado, têm se manifestado de forma mais complexa.

Ainda que as mulheres tenham se inserido no mercado de trabalho, sua identidade como agente reprodutora é perfeitamente aceitável no capitalismo que se

apropria duplamente do trabalho realizado pelas mulheres como trabalhadoras, mães e esposas, ou seja, seu trabalho na produção e na reprodução social.

Os valores, discursos e referências culturais que articulam a consciência não surgem de uma hora para outra, eles se desenvolvem através das experiências de exploração e das lutas vivenciadas por outros trabalhadores em períodos históricos distintos. Esse processo pode ser iniciado por uma organização sindical e aprimorado pelos partidos, com o intuito de promover a emancipação da classe trabalhadora.

Avalio que os sindicatos tem como função principal a luta econômica, ou seja, devem impedir que o valor da força de trabalho seja menor do que é necessário para manutenção das necessidades dos trabalhadores e da sua família. São organizações criadas pelos próprios trabalhadores na luta contra o capital. No entanto, os sindicatos não devem limitar-se à sua função principal, já que a regulamentação salarial e da jornada de trabalho, por exemplo, não promove, por si só, a emancipação da classe trabalhadora. A luta política também deve ser fomentada no interior dos sindicatos.

O papel emancipatório da classe trabalhadora capaz de propiciar a transformação social só será pleno quando as mulheres trabalhadoras estiverem inseridas de forma equitativa nesse processo. Como pensar esse potencial emancipatório se as mulheres que compõem essa classe são excluídas dos processos de organização ou inseridas de forma subalterna?

Apropriar-se das pautas econômicas para ampliar o processo de conscientização da classe trabalhadora implica incorporar as demandas e especificidades da mulher trabalhadora nesse processo. Considerando-a como parte dessa classe e tão protagonista quanto os homens na luta.

Luta que deve se aliar à desenvolvida por outras organizações, como o movimento feminista e de mulheres, que considere a heterogeneidade da classe trabalhadora e as implicações que a inserção diferenciada no mercado de trabalho gera na participação das mulheres nos espaços políticos. A participação equitativa da mulher trabalhadora na vida política é reflexo da luta desenvolvida por elas nos movimentos autônomos.

O desafio posto está centrado na superação da disparidade entre homens e mulheres no acesso aos espaços de decisão e no fortalecimento dos espaços de auto-organização das mulheres nos sindicatos. Apontar que os espaços oferecidos às mulheres nas diretorias sindicais são limitados e, em muitos casos, reproduzem a segregação presente na divisão sexual do trabalho é dar continuidade ao processo de

questionamento presente nas lutas travadas pelas mulheres trabalhadoras historicamente.

As trabalhadoras que arduamente conquistam esses espaços são vistas, em muitos momentos, como fora dos padrões de gênero estabelecidos, como se estivessem fora de lugar. Em várias organizações sindicais as mulheres são excluídas dos cargos mais relevantes como presidência, tesouraria e secretaria geral. Assim, as práticas sindicais acabam por reproduzir as formas da divisão sexual do trabalho, colocando as mulheres em atividades secundárias, investindo pouco em formação política e em sua trajetória como liderança.

A grande presença feminina no mercado de trabalho abre espaço para o questionamento ao movimento sindical sobre a igualdade de gênero. Os mesmos fatores que limitam a ascensão profissional das trabalhadoras são responsáveis pelo distanciamento delas nos cargos de direção sindical?

A luta das mulheres sempre esteve presente na luta dos trabalhadores, assim como o desafio de conciliar a esfera pública e a privada. No entanto, a presença delas nos movimentos sociais, no movimento sindical ou partidário é frequentemente silenciada e suas demandas, ainda que com resistência, são constantemente postergadas, mesmo nas organizações se insiram no campo da esquerda.

As organizações sindicais desenvolvem seu discurso sobre o processo de trabalho e os trabalhadores, vinculando-o ao conceito de igualdade e emancipação. No entanto, esse debate em muitos momentos desconsidera a heterogeneidade da classe trabalhadora e traz uma concepção assexuada de classe.

Não pretendo nesse espaço, desqualificar as ações desenvolvidas pelas organizações dos trabalhadores sobre essa temática, mas sim reforçar a necessidade de uma reflexão crítica desse processo. Ações afirmativas como a Lei de Cotas implementada pela Central Única dos Trabalhadores, por exemplo, refletem a luta das mulheres para ampliar a participação política. O que temos é a certeza de que essa luta continua e que força não nos falta para travá-la. Precisamos ampliar esse debate e, assim, avançarmos ainda mais no caminho que nos leva à igualdade.

Sobre o Autor

Ana Paula Souza

Feminista. Assistente Social. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFJF. Militante da Marcha Mundial de Mulheres.

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