23 de janeiro de 2015, por Oleg Abramov

Adilson

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transporte Coletivo Urbano, Intermunicipal, Interestadual, Fretamento e Turismo de Juiz de Fora-MG (Sinttro-JF), Adilson Antônio Rezende, falou ao Pautando sobre a perspectiva da licitação do sistema de transporte público proposta pela atual administração municipal em Juiz de Fora. Ele fez ainda um raio X dos principais problemas que profissionais do transporte e população enfrentam na cidade.

PAUTANDO: Em relação à audiência da última segunda-feira dia 19 de janeiro de 2015, qual a avaliação que o sindicato faz sobre a proposta de licitação apresentada pela prefeitura?

ADILSON: Da forma como a prefeitura coloca a questão, o sindicato não tem outra alternativa senão ser contra essa licitação. Não há qualquer garantia da manutenção dos empregos e dos direitos conquistados pela categoria. Entre trabalhadores e familiares, milhares de pessoas poderão perder sua fonte de renda caso as novas empresas licitadas promovam demissão em massa.

PAUTANDO: O país viu no ano passado grandes manifestações a respeito do transporte público.

ADILSON: Se todo mundo foi para a rua, se manifestar, me diga em qual lugar as coisas mudaram? Alguma reivindicação foi atendida?

PAUTANDO: Bem, apenas atrasou-se o aumento da passagem. Mas pode-se atrasar um aumento de 20 centavos e depois aumentar 40.

ADILSON: Mas será que atrasou mesmo? Veja, nos últimos anos, na cidade de Juiz de Fora, a passagem sempre aumentou 10 centavos. Após dois anos sem reajuste, reajustar em 20 centavos significa apenas receber os atrasados. Hoje, quando a empresa põe um carro na rua, já recebeu o dinheiro dela, já que os cartões de vale-transporte já foram carregados. Se o trabalhador tiver 100 passagens e não usar, o problema é dele, ele não pode trocar aquilo, vai perder. A empresa já recebeu a parte dela.

Não adianta ir pra rua no dia de um jogo do Brasil. Por que não vão para a rua agora? Que não tem jogo, não tem carnaval…? Isso estava sendo direcionado. O povo não pode agir dessa forma. Precisa se educar. Você conhece alguma universidade no Brasil que ensina política sindical? Como em muitas outras cidades, em Juiz de Fora não se vê a população pedindo explicação ao poder público; quando pede, para se entrar ali, é preciso quase pular a janela, quando as portas deveriam estar abertas. Sem essa luta da população, fica fácil “fazer política” é Juiz de Fora.

PAUTANDO: Quanto do valor da passagem é repassado para as empresas?

ADILSON: As empresas não recebem por passagem. Isso é outra coisa que as pessoas precisam aprender. Se o ônibus andar com um passageiro ou com 200, isso não faz diferença. A empresa recebe por quilômetro rodado. Mas não se sabe quanto. O poder público deveria ser transparente quanto a isso. Para nós sabermos quanto dá de lucro ou prejuízo, a prefeitura deveria administrar 20% das linhas. E por ser o poder concedente, informar isso, porque assim poderíamos saber como se deve aumentar a tarifa, se há prejuízo, como devemos reivindicar o salário da minha categoria etc.

PAUTANDO: Se alguém perguntar hoje “quanto dinheiro movimenta o transporte de Juiz de Fora”, você tem a resposta?

ADILSON: Os dados que você tem são os que qualquer outra pessoa vai ter, que são os nove milhões de viagens multiplicados pelo valor tarifa. Isso dá um número, mas esse bolo é repartido para quem? Quanto? Se você tem um remédio e não sabe a doença é o mesmo que trazer qualquer empresa do mundo para Juiz de Fora por meio de licitação e não dar condições de ela desenvolver o trabalho… trocam-se apenas as alianças, mas a noiva é a mesma.

PAUTANDO: Quais os principais problemas que afetam os trabalhadores e usuários em nossa cidade?

É preciso esclarecer a toda a sociedade, que não conhece a fundo a situação do transporte de Juiz de Fora, que ele passa por uma burocracia tão absurda que até hoje ninguém conseguiu me explicar. Um dos problemas é o quadro de horários de percurso, que na cidade está atrasado há muitos anos. Um exemplo: para a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), há um carro que tem 21 minutos para sair do centro, rodar toda a universidade e voltar. A gente coloca nossa equipe na rua para fazer levantamentos e ver quanto tempo de percurso seria o suficiente para que esse trajeto fosse cumprido com segurança, sem que passassem ônibus de uma mesma linha nem muito vazios nem muito lotados (porque o próximo carro demora muito), nem que passassem três, quatro carros ao mesmo tempo.

PAUTANDO: Como isso é organizado? Por que não muda?

ADILSON: As empresas fazem um levantamento; os sindicatos fazem levantamentos todos os meses. Quem define o horário é a Secretaria de Transporte e Trânsito (SETTRA), que consulta o presidente de bairro. Ela não consulta o profissional, nem vai fazer essa fiscalização onde há deficiência de horário. Nós entregamos isso pronto à SETTRA, mas esbarramos no fato de precisar fazer uma reunião com presidente de bairro para ele autorizar uma mudança de 20 para 26 minutos, por exemplo. E muitas vezes, para não ter problema com o pessoal do bairro, ele não autoriza. A pregunta que eu deixo para o poder público é: qual a autonomia que o presidente de bairro tem para definir horário de ônibus? O problema é que hoje em dia temos linhas com quadro de horário de dez viagens, mas que cumprem apenas sete ou oito, porque o tempo é muito pequeno entre as viagens nesses quadros defasados. Esse atraso vem se acumulando no decorrer do dia até chegar no horário pico da tarde, entre 16h30 e 20h.

PAUTANDO: E que solução você vê para isso?

ADILSON: A solução é que a SETTRA fizesse o papel dela, que cumprisse os horários, que aceitasse o trabalho de levantamento que os profissionais fazem. Só eles são capazes de saber quanto tempo esses percursos levam. Que sejam cumpridos os horários que são entregues pelo sindicato e pelas empresas.

PAUTANDO: Com que frequência há levantamento e alteração nos quadros de horário?

ADILSON: Não há um padrão de revisão de quadro de horários ao longo do ano. Depende da necessidade. E há quadros de horários que estão aí como sempre foram desde que Juiz de Fora existe, sem alterações, apesar do crescimento da cidade. Cada linha é um caso.

PAUTANDO: A instalação do GPS não ajuda nisso?

ADILSON: O GPS hoje te dá a exata necessidade de mudança, seja de ponto, seja de trajeto, durante 24h. Mas parece que a tecnologia veio só para encarecer a tarifa para o usuário, porque mesmo vendo as necessidades das linhas na nossa frente, ninguém pode mexer porque o presidente de bairro não quer. A solução é fiscalização pelo órgão competente que é a SETTRA. É preciso confrontar SETTRA e empresários, para a gente ver quem domina quem.

PAUTANDO: Mas uma fiscalização com quadros de horários defasados penaliza o trabalhador.

ADILSON: Acontece que esse tipo de fiscalização sequer é feita. O que se faz é tudo que gera multa para o motorista e o cobrador, que pagam do próprio salário. Temos um advogado para recorrermos dessas multas, senão você acaba com a ferramenta de trabalho do motorista que é a carteira dele cheia de pontos. Colocamos dois diretores do sindicato dentro da Junta Administrativa de Recursos e Infrações (JARI – órgão da SETTRA que julga as multas). Só que é o peixe vigiando o gato, porque tem dois diretores do sindicato e quatro do lado da prefeitura. Ou seja, não vai empatar e vamos perder sempre, pois são quatro contra dois. Mesmo assim, conseguimos uma média de 70% de reversão das multas.

PAUTANDO: Que outro problema você citaria?

ADILSON: Estacionamento de rua. A gente esbarra com estacionamentos de rua em todas as áreas da cidade, até em ponto de ônibus. Uma solução que vejo seria o prefeito Bruno Siqueira ter a coragem de acabar com estacionamento de rua. Esses estacionamentos geram dinheiro. Mas com isso não dá pra ter ciclovia. Em contrapartida, nossos motoristas são multados até quando saem da faixa para deixar passar ambulâncias, carros de polícia etc. São coisas absurdas que existem, enquanto a população fica acreditando em determinadas coisas que não existem.

PAUTANDO: Fale um pouco sobre o bilhete único na cidade.

ADILSON: É uma ilusão. A premissa em Juiz de Fora é a de que, durante 90 minutos, pode-se pegar até dois ônibus num mesmo sentido, ao custo de R$ 3,25. Acontece que isso é uma raridade na cidade. Geralmente a pessoa vai ao centro e há um ônibus que faz esse trajeto direto a partir dos bairros e a maioria não leva mais de 90 minutos. Mesmo se a pessoa for ao centro e demorar menos que isso, também não pode aproveitar o benefício ao retornar ao bairro (sentido contrário), então pagará mais uma tarifa. Na prática, toma-se apenas um ônibus e paga-se R$ 1 a mais em relação à tarifa atual, de R$ 2,25.

PAUTANDO: Então é um recurso que aparentemente moderniza o transporte de Juiz de Fora, mas que na verdade poucas pessoas vão de fato utilizar. A maioria a população vai perder o benefício em 90 minutos e acabará pagando R$ 3,25 em vez de R$ 2,25 (atual tarifa) e R$ 6,50 (duas passagens) em vez de R$ 4,50.

ADILSON: Exatamente. É um reajuste violento ou não é?

PAUTANDO: No final de 2014, a prefeitura lançou um aplicativo, o “CittaMobi”, com o mote de auxiliar os usuários a saber o tempo de espera por seu ônibus e assim garantir mais conforto à população usuária do transporte coletivo. O aplicativo faz parte de um sistema de monitoramento do transporte público na cidade chamado “No Ponto”. O que opina sobre isso?

ADILSON: Cadê o resultado do aplicativo? Se a pessoa não tiver um celular de quinta geração, o aplicativo serve para quem e para quê? O aplicativo deveria ser como o Bolsa Família: se você faz um aplicativo, tem que dar um celular para cada pessoa, e de quinta geração, que funcione. Como é que uma dona de casa, com a sacolinha de compras dela, vai olhar no aplicativo? Ela não sabe nem mexer naquilo. O aplicativo te mostra onde está o ônibus, mas não mostra se ele está no horário. Você pode ver que o ônibus está por perto, sem saber que ele pode estar com um problema, ou seja, parado e sem sair do lugar. Tudo isso na verdade é uma máscara para esconder a cara da licitação e a necessidade de se resolver a defasagem de hotrários. Para a SETTRA se modernizar, não adianta colocar GPS, nem aplicativo.

PAUTANDO: Muitas vezes, a visão do usuário é superficial: afinal, nossos ônibus não são quebrados nem velhos; aparentemente não há falta de ônibus, pois há muitos na rua, mas que não conseguem circular… o que se esconde por trás desse simplismo?

ADILSON: Se olharmos para os trajetos de Juiz de Fora, veremos que poucas são as linhas mais afastadas da cidade. Para ir à Santa Casa há dezenas de linhas. Poderia haver menos linhas coincidentes nas ruas, trânsito mais fluido, ônibus mais bem ocupados se fossem atualizados os quadros de horários. As câmeras, o GPS, o aplicativo etc. só servem para justificar o aumento da passagem. Quanto mais bobagem colocam na cabeça da população, mais acreditam. A câmera, por exemplo, não serve ao cobrador como prova em caso de assalto, mas serve para monitorar o trabalhador, inclusive para puni-lo com multas. O aplicativo deveria vir para melhorar a qualidade do serviço, mas com certeza vai ser usado para penalizar o trabalhador. Porque se o motorista for tomar água por dois minutos, você o verá parado por dois minutos. Na empresa, esse profissional será reprimido. Se ele estiver parado no trânsito, vai ser visto como parado, mas não será visto o motivo disso: um caminhão na frente, um buraco por exemplo. Eu espero colher mais informações e dados sobe o aplicativo, porque ele é muito novo ainda.

PAUTANDO: Quem recebe os dados do aplicativo?

ADILSON: A SETTRA. Ela repassa só o que interessa a ela. Repassa os 10% que dão certo; o que dá problema a população não tem acesso. Juiz de Fora tem 566 linhas. Muitas delas para agradar presidente de bairro. A administração em Juiz de Fora ainda não é profissional, é política.

PAUTANDO: Como é a comunicação dessas questões entre o sindicato e a população?

ADILSON: Nós distribuímos material, mas falta educação política, falta trabalho político. Não se vê um folheto dentro do ônibus falando sobre isso. Além disso, os cartazes nos ônibus só são colocados com autorização a SETTRA. Também não quero pedir nada para os empresários porque não quero fazer barganha, já que nada é de graça.

 

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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