20 de janeiro de 2015, por Oleg Abramov

15-01-20   Péricles

Dando sequência ao Dossiê Transporte Público – JF, o Pautando publica uma entrevista exclusiva com Péricles de Lima. Ele foi presidente da Central Única dos Trabalhadores – Regional Zona da Mata no período das intensas manifestações contra o aumento da passagem do período 2006 /2007 e que se desdobraram na mobilização pelo Movimento Fora Bejani.

Seu desfecho foi a renúncia do então prefeito em 2008. Nesta entrevista, Péricles relembra parte da história da luta popular, estudantil e sindical contra os sucessivos aumentos da passagem e pela revisão do sistema de transporte público no município de Juiz de Fora.

PAUTANDO: Péricles, como presidente da CUT regional Zona da Mata você esteve à frente dos atos que acabaram por derrubar o prefeito Alberto Bejani. Você pode relembrar ao nosso leitor do que aconteceu na época?

PÉRICLES: Aquele foi um grande movimento, principalmente porque terminou com a prisão do então prefeito Alberto Bejani. Na verdade, tudo começou em 2006 com os atos do movimento estudantil contra o aumento da passagem de ônibus. Naquele momento o movimento foi muito maior, com a presença em massa dos jovens, principalmente da UFJF. Foi um movimento no qual a CUT Regional e sindicatos filiados se juntaram, mas a condução era dos estudantes, pois eles eram a maioria naquele momento e no decorrer dos atos realizavam assembléias para decidirem o percurso, se iriam continuar bloqueando as ruas etc.

Infelizmente, a repressão policial foi violenta, jogando a cavalaria contra os manifestantes. Até a OAB se manifestou contra o excesso cometido pela Polícia Militar. Além disso, vários participantes foram perseguidos e ameaçados por indivíduos lutadores de academia, que até hoje suspeitamos, que eram ligados ao presidente da Câmara na época, o vereador Vicentão e até mesmo ao Bejani.

Houve ocupação da Câmara e os vereadores tiveram que interromper os trabalhos da sessão ordinária, pois não havia condições para continuarem. Mesmo assim, a maioria deles ignorou a nossa causa.

No ano seguinte, em 2007, quando nos preparávamos para os atos, percebemos que os estudantes não respondiam ao chamado de suas lideranças. Mesmo assim, com três dirigentes da CUT Regional, Marola, Raquel e eu, fomos pra rua e agitamos com abaixo-assinado. As lideranças do movimento estudantil compareciam, mas a base não atendia ao chamado. Antes de o prefeito assinar o decreto do aumento, procuramos o Ministério Público de Defesa dos Direitos do Consumidor, ao qual entregamos o abaixo-assinado que chegava 16 mil assinaturas. Isso foi feito com a presença da imprensa local que passou a cobrir nossa luta. Esse mesmo abaixo-assinado foi protocolado na Câmara Municipal, com a presença da mídia, mas infelizmente nada foi feito. Mas alguns vereadores da oposição ao prefeito já entendiam que havia algo errado.

O MP enviou um representante para a reunião do Conselho do Transporte. Como sempre, havia duas propostas de aumento. Apresentamos a nossa proposta que era de congelamento das tarifas. O presidente do Conselho não aceitou colocar nossa proposta em votação. A essa altura dos acontecimentos, a reunião já estava tomada por aproximadamente 80 estudantes, alguns sindicalistas e, é claro, o pelotão de choque da PM. Assim, o pelotão de choque nos colocou pra fora da reunião, permitindo apenas que os conselheiros ficassem no local. O reajuste foi aprovado e encaminhado ao Poder Executivo para que o mesmo autorizasse. No dia seguinte, recorremos ao MP, que nos ouviu e disse que nosso relato coincidia com o do representante que ele havia enviado e que havia sido enviado um ofício ao prefeito Bejani, solicitando que não aumentasse a tarifa do transporte público até que a planilha de custos fosse estudada por peritos.

Bejani cometeu o erro de não atender ao MP e decretar o aumento. O promotor se sentiu desrespeitado pelo prefeito e então começou uma luta jurídica que fez com que em vários momentos daquele ano o valor da tarifa alternasse entre o novo reajustado, e o valor anterior.

PAUTANDO: Como as mobilizações passaram da luta contra o reajuste da passagem para o Fora Bejani?

PÉRICLES: Em 2008, quando surgiu um vídeo da Polícia Federal, divulgado pela mídia e que mostrava o prefeito Bejani recebendo sacolas de dinheiro de um empresário do transporte público. No dia seguinte, a juventude estudantil veio para o movimento que se transformou em “Movimento Fora Bejani”. Com as provas de corrupção conseguidas pela Polícia Federal, com a ação do MP para manter o preço da passagem e com o Movimento Fora Bejani ganhando as ruas, bairros e feiras, não demorou para que prefeito saísse preso de Juiz de Fora. Foi aí que Bruno Siqueira, presidente da Câmara Municipal, aproveitou a situação e abriu a CPI da Administração Bejani.

PAUTANDO: Quais entidades se envolveram e como os militantes se organizaram para ir ao enfrentamento?

PÉRICLES: O DCE foi muito importante naquele primeiro momento, pois foi ele que mais mobilizou. Mas contamos também com a participação da CUT Regional e Sindicatos CUTistas, PT, PSTU, PCB e Conlutas. Mas para nós, as Associações de Bairro, com as quais o companheiro Marola mantinha o diálogo, foi fundamental, pois nos permitia ter acesso à população dos bairros.

Já no Movimento Fora Bejani, isso aumentou, pois outros sindicatos não CUTistas aderiram, como o Sindicato do Comércio. A Juventude do PCdoB (UJS) também veio com tudo, mesmo com o partido se posicionando contrário, uma vez que participava do governo Bejani.

Geralmente nos reuníamos para fazer avaliações e traçarmos o próximo ato. Isso acontecia geralmente no Sindicato dos Bancários e no DCE. Desculpem-me se esqueci de citar alguma entidade. É que com o movimento de grandes proporções como aquele, é fácil deixar de lembrar de uma ou outra entidade, que apesar disso, não foi menos importante que as outras.

PAUTANDO: Além de barrar o reajuste, quais eram as reivindicações do movimento na época?

PÉRICLES: Como disse anteriormente, o movimento surgiu para barrar o reajuste da tarifa, mas com o desenrolar do movimento as discussões foram avançando. O movimento estudantil deixou claro desde o início que também lutavam pelo passe-livre. Além disso, começamos a discutir sobre o transporte público como um serviço público e exatamente por isso, para melhor servir ao público e não ao empresário, deveria ser estatizado. Passamos a discutir sobre a estatização do transporte público sob o controle dos trabalhadores e usuários.

PAUTANDO: Em seguida, o escândalo atingiu a Câmara. Como isso ocorreu?

PÉRICLES: O escândalo foi parar na Câmara porque à medida que ocorria a CPI, o nome do vereador Vicentão foi aparecendo inclusive nas investigações da Polícia Federal. Naquele momento, nós já tínhamos encerrado o movimento. O que ficou foi uma ação isolada da companheira Victória e do companheiro Marola, que faziam a discussão com abaixo-assinado no calçadão, aproveitando a notícia divulgada pela mídia de que a Polícia Federal havia encontrado dinheiro enterrado no quintal da casa do Vicentão. Não demorou muito para que ele também saísse preso de Juiz de Fora.

PAUTANDO: Então o epicentro de todo esse processo que levou à renúncia do prefeito e do vereador foi o sistema de transporte?

PÉRICLES: Não posso afirmar isso, pois teve também uma ação da Polícia Federal, Operação Passárgada, que investigava o desvio de verbas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e que encontrou em sua casa mais de um milhão de reais e uma arma de uso exclusivo das Forças Armadas.

Mas com certeza podemos afirmar que a luta em relação ao transporte público foi muito importante para desgastar a imagem do prefeito Bejani, que tinha grande aceitação, principalmente junto ao povo mais carente financeiramente.

PAUTANDO: O que é que deveria ter sido realizado na época e não foi feito até hoje?

PÉRICLES: Os movimentos desse tipo têm uma característica especial: geralmente são sazonais e que não existe como manter isso o tempo todo. Geralmente apresentam picos que costumam ocorrer em todo o país. O Movimento Passe Livre (MPL) já conseguiu se organizar em algumas das principais cidades do país. Acho que em pouco tempo teremos a iniciativa dessa organização também em Juiz de Fora.

Acho que uma melhor organização do movimento poderá ampliar a discussão que se fez sobre a estatização do transporte público, que ficou limitada a algumas entidades partidárias de esquerda. Acho que a CUT deveria manter essa discussão aberta, juntamente com a questão do passe-livre, assim ficaria mais fácil para envolver sindicatos na organização destes movimentos. Afinal, as diversas categorias são usuárias do transporte público.

PAUTANDO: A administração atual afirma que iniciará o processo de licitação. Na sua opinião, o que o governo deve fazer?

PÉRICLES: O processo de licitação não irá resolver os problemas do transporte público em Juiz de Fora ou em qualquer outro lugar. Apenas dará mais legitimação nos próximos reajustes da tarifa. Nossa posição deverá ser sempre a da luta pela estatização do transporte público.

No caso de o governo aceitar a proposta de estatização, devemos participar, pois ela deve ser feita sob o controle dos trabalhadores e usuários do transporte público.

PAUTANDO: Qual é a mensagem que você deixa para o conjunto dos militantes que intervirão no processo de revisão do sistema de transporte público?

PÉRICLES: No Conselho do Transporte vimos que as planilhas são apresentadas juntamente com as propostas a serem votadas. Ninguém, exceto os empresários do transporte, consegue entender tais planilhas. O MP teve que contratar especialistas da UFJF para estudar a planilha e apresentar o índice de reajuste da tarifa baseado nesta planilha. Isso demorou muito. Os especialistas tiveram muito trabalho para conseguir entender a planilha e principalmente encontrar onde estavam os “gambás” colocados pelas empresas.

Quero dizer o seguinte: a tarefa é muito difícil e exige tempo e conhecimentos técnicos. Portanto, não se aventurem a participar de algo que não conheçam, a não ser que tenham uma assessoria especializada e o tempo necessário para os estudos que devem ser feitos.

Sobre o Autor

Oleg Abramov

Doutor e Mestre em Ciências Sociais pelo PPGCSO/UFJF. Formado em História (UFJF) com especializações em História do Brasil (CES/JF), História Econômica (FEA/UFJF), Planejamento e Gestão Social (UFJF) e Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (UFF). Pesquisa sistemas de bem-estar e políticas públicas de recorte social. É militante do movimento popular e sindical e fez parte do movimento estudantil. Leciona, foi Superintendente de Redes de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde - MG e atualmente é Superintendente Regional de Saúde - SES/MG.

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