29 de dezembro de 2014, por Natália Noyma

14-12-21   Natália_agua SP

As famosas chuvas de verão estão chegando, mas não se enganem: será necessário chover 25% a mais da média na região Sudeste para que as vazões de nossas mananciais se regularizem. Eventos hídricos extremos (períodos de seca e enchentes) ocorrerão com mais frequência nos próximos anos devido a mudanças climáticas globais e precisamos estar preparados para amenizar seus efeitos na sociedade, economia e meio ambiente.

2/3 da superfície da Terra é coberta por água, sendo que apenas 2,5% do total disponível correspondem à água doce. Do total de água doce no planeta, 0,3% é representada por rios e lagos, fração esta diretamente disponível para o nosso consumo. É importante considerarmos a água doce um recurso finito e vulnerável, pois somente assim podemos traçar práticas de gestão do uso da água.

E quais ações devem ser feitas? Primeiro melhorar a qualidade da água que é deteriorada pela mudança do uso do solo (urbanização, desmatamentos) e, principalmente, pela falta de saneamento básico e tratamento de esgoto. A poluição dos recursos hídricos além de acarretar problemas de saúde pública, como a disseminação de doenças, também impede a utilização de determinadas fontes justamente pela alta concentração de poluentes. Podemos ter a quantidade, não a qualidade suficiente para o consumo humano.

Outra questão é o sistema de governança dos recursos hídricos. Sem ações integradas entre os governos federal, estadual e municipal as intervenções passam a ser pontuais, negligenciando uma visão sistêmica da bacia hidrográfica. Do que adianta um projeto de despoluição de um rio realizado apenas em um determinado trecho, de uma determinada cidade? Em longo prazo? Nada…

O livre acesso à informação sobre a disponibilidade e qualidade da água à população é uma das mais importantes armas que temos contra o aumento do consumo e desperdício. A falsa impressão que está “tudo sob controle”, minimiza a conscientização da real crise hídrica que estamos passando. Incentivos para quem reduz o consumo são válidos, porém é necessária a punição para quem consume mais, seja por meio tarifário ou por cursos presenciais de uso sustentável da água (como já ocorre na Califórnia, EUA).

Ações para a redução do gasto de água não devem ser aplicados somente em residências. Deve-se diminuir também a demanda de água na agricultura e indústrias. Em escala mundial, o uso de água potável na agricultura chega a 70% do total. Desse modo, são necessários investimentos tecnológicos que propiciem o uso racional deste importante recurso, favorecendo os processos menos dependente de água, reutilização e reuso.

A ação mais importante a longo prazo e que, consequentemente, deve ser colocada em prática imediatamente é o reflorestamento das matas ciliares dos mananciais. Além de

proteger os corpos d’água de assoreamento, a cobertura florestal ajuda na infiltração da água da chuva no solo, abastecendo assim, os lençóis freáticos e os próprios rios. Se quisermos ter mais água, precisamos plantar mais árvores. Informação esta ignorada pela Assembleia Legislativa de São Paulo que aprovou uma lei que reduz a largura da faixa de mata ciliar de 30 para 5 metros.

E ainda tem a coragem de culpar São Pedro pela falta d’água?!?

Sobre o Autor

Natália Noyma

Pós-doutoranda na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando na área de mitigação de florações de cianobactérias em lagos. Doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com período de doutoramento Sanduíche pela Universidade de Wageningen, na Holanda. Possui graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

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