1 de dezembro de 2014, por Marcos José Ortolani Louzada

tarsila

Conforme Antunes (1995), a partir de 1980, os sindicatos passaram a apresentar sucessivas quedas nos índices de sindicalização, evidenciando uma crise do sindicalismo a nível mundial. A reestruturação produtiva, que se inicia com o declínio do modelo de produção fordista/taylorista, impulsionou o processo de reconfiguração organizacional e produtiva nas empresas, na qual a sustentabilidade dos sindicatos nos termos fordistas não era mais admitida. Segundo o autor:

“A fragmentação, heterogeinização e complexificação da classe-que-vive-do-trabalho, questiona na raiz o sindicalismo tradicional e dificulta também a organização sindical dos outros segmentos que compreendem a classe trabalhadora.”(Antunes, 1995, p.)

No Brasil, o final da década de 1970 marca o surgimento do novo sindicalismo, que culminaria com a fundação da CUT, em meados dos anos de 1980. A combatividade que marcou os primeiros anos do sindicalismo cutista conseguiu elevar sensivelmente as taxas de sindicalização até o início da década de 1990. A partir daí, segundo Márcio Pochmann, com a intensificação da reestruturação produtiva, os sindicatos começaram a perder poder e as taxas de sindicalização caíram quase pela metade quando comparadas com a década de 1980. Segundo Pochmann, a taxa de sindicalização no Brasil era de 11% ao final dos anos 1970. Na década de 1980, chegou a 32%, caiu para 15% na década de 1990 e, atualmente, está em 18%.” (POCHMANN, 2008)

Ao estudar especificamente o comportamento do sindicalismo bancário, Jairo Junckers (2009) observa um fato interessante. Enquanto a quantidade absoluta de trabalhadores sindicalizados caiu a cada ano a partir de 1995, seguindo a tendência nacional, a taxa de sindicalização entre os bancários subiu, criando uma situação ímpar. Em 2001, segundo IBGE, a taxa de sindicalização na categoria bancária era de 69,8%, enquanto a média de empregados urbanos estava em 29% e a taxa nacional estava em torno de 17%. Segundo este autor, este movimento, até certo ponto contraditório, é fruto da opção do sindicalismo bancário em representar exclusivamente a categoria formalmente contratada, desprezando do cálculo das sindicalizações os empregados em empresas terceirizadas. Junckers aponta que a manutenção destes elevados índices de sindicalização significou também uma importante mudança na forma de ser e agir dos sindicatos. A necessidade de sobreviver em meio a intensas transformações impostas pela reestruturação produtiva fez com que as entidades sindicais bancárias optassem por uma “ação tática”, na qual o sindicato, além de representar os trabalhadores na relação capital-trabalho. Essa mudança no modus operandi sindical, de certa forma, está ligada a necessidade do sindicato em conseguir interagir com a subjetividade da categoria, especialmente com o novo trabalhador bancário.

A década de 1990, impregnada de neoliberalismo, introduziu naturalmente numa geração de trabalhadores elementos contrários a luta coletiva. Sob essa perspectiva, muitos sindicalistas e estudiosos do mundo do trabalho alimentaram uma certa descrença quanto ao futuro do sindicalismo, considerando que os novos trabalhadores não iam se interessar pela luta de classes, e no caso do sindicalismo bancário esse sentimento não foi diferente.

No entanto, partindo especialmente do trabalho de Thompson (1985), devemos ter um olhar crítico para as contradições do processo de trabalho geradas pela introdução das políticas da acumulação flexível. Elas certamente produzirão entre esses trabalhadores algum tipo de reação, cuja consequência é a formação, ainda que involuntária, de um certo vínculo social ou solidariedade de classe. Neste terreno, pode ocorrer um choque ideológico, entre novos paradigmas propostos acumulação flexível e aqueles moldados por uma perspectiva questionadora, cuja devida apropriação pelos sindicatos poderá se converter na consciência sindical e classista.

Esse é o grande desafio, posto não somente ao movimento sindical bancário, mas aos movimentos sociais classistas como um todo, encontrar meios de interagir com a classe trabalhadora de forma a capturar sua subjetividade. Um movimento que não se encerra aí; devemos ser o intelectual orgânico que usa esse processo para construção de um sentimento maior, que visa construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Sobre o Autor

Marcos José Ortolani Louzada

Economista, formado na UERJ. mestrando em Serviço Social, na UFJF. Ex-presidente do Sintraf-JF e ex-Dirigente da Fetrafi/MG. Conselheiro Fiscal suplente da Cassi. Ex-bancário do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal e atualmente é servidor da UFJF.

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